sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

AMOR, MEU AMOR!


Os corpos que antes se abraçaram e se uniram, estão de novo separados.
Um fogo imenso de labaredas vastíssimas, e os clamores de prazer ainda a ecoar pelas paredes do quarto. O colchão deitado no chão, os lençóis apartados, as almofadas esquecidas, e a grande janela a transpirar pelo calor provocado pelos corpos derretidos. Os dois esquecem o mundo, esquecem tudo, cavalgam no nome que sabem e repetem de cor. - Amor, meu Amor!
Como para Espanca, é pouco, é muito pouco mas é bastante. Uma paixão doida que dia a dia cresceu com vigor, como de um sonho vago e sem fervor.
Susana e Afonso alimentam-se desta paixão inquietante, ardente, louca, imprevista. O mundo desaparece para bem longe quando se amam, fica muito distante, esconde-se atrás das antigas galáxias, no interior dos seus precipícios mais profundos. As mãos dos amantes voltam a apertar-se, até ficarem vermelhas, e os dois regressam a esse país de ilusão que só existe quando Afonso povoa Susana e Susana o recebe dentro de si.
- Amor, meu Amor, não penses nisso, não agora, por favor! – pede-lhe a amada, a soluçar.
Os corpos separados, voltam a abraçar-se e a unir-se.
O fogo perdura, os frémitos abalam as paredes desse quarto. O chão passa a ser o colchão por onde lençóis e almofadas esquecidas deslizam sem regras. A grande janela transpira como nunca, como se fosse feita da mesma pele adocicada dos amantes, como se fosse viva e também desejasse esquecer o mundo, esquecer tudo, e cavalgar sem rumo montada na frase que os dois repetem sem parar. - Amor, meu Amor!

Sofia, mais do que desconfiada, sabia que o Afonso a traía. O marido trazia os cheiros de outra mulher, os olhos dele brilhavam de outra maneira. Os seus lábios beijaram outros lábios que não os seus, acariciaram outros seios, outras coxas e outro sexo. Não tem a mais pequena dúvida que Afonso foi recebido pelo corpo de outra mulher.
Até o Tiago, tão novo, percebeu no pai sinais dessa mudança.

- Preferi escrever. Não sei nem quero responder às tuas estranhas perguntas. – avisa Rui de caneta na mão.
A paisagem muda, lentamente. O nevoeiro dissipa-se e as imagens das ruas e do rio regressam devagar.
- Acho bem. Nada como um tórrido romance para apimentar as coisas. Isso mesmo! Agora pensa num crime, uma coisa misteriosa, sangrenta. Não pares, parar é que não. Aproveita a embalagem. Vês como fiz bem em trazer-te comigo para estes lugares remotos. Estavas a necessitar de um abanão, só isso! Qual falta de imaginação e de criatividade, qual carapuça! A história já existe. Tu sabes disso melhor do que ninguém. Só tens de a reencontrar, com a mesma mestria com que descobriste as obras anteriores.
O companheiro indesejado prepara outras viagens. Aproveita o novo dom, a sua recém-adquirida capacidade de se deslocar sem se mover, para proporcionar novas experiências ao escritor. As vozes insistem para ele proceder dessa maneira.
Rui sente, pela primeira vez, que não conseguirá terminar a nova obra nos prazos previstos sem os seus indispensáveis serviços.

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