O agente telefonou, Rui não respondeu. A
obra está parada e tudo o que ele lhe pudesse dizer, enervá-lo-ia ainda mais.
- Anda toda a gente doente, é o que eu te
digo. Esta gripe anda a dar cabo da vida ao pessoal. Não temos mãos a medir, e
até já tivemos de encaminhar doentes para outras urgências. Estamos a atingir o
ponto de rotura. E tu, como tens passado desde o ano novo? Não te esqueças de
fazer tudo o que eu te disse, mano! A última coisa que desejamos é que tenhas
uma recaída. Anda lá, faz tudo conforme combinámos. Amanhã ou depois volto a
ligar-te. Sim, eu sei, não é nada disso, é claro que não te ando a controlar.
Tenho a vida ocupada de mais para te andar a controlar. Da próxima vez, podes
ser tu a ligar-me, hem? O que é que achas? Telefona-me no próximo sábado. Tens
lido o livro que te ofereci? Ótimo, ainda bem, eu sabia que ias gostar.
O coração de Rogério fica acelerado quando
fala com o irmão Zé Paulo. As imagens da infância, naquela noite em que a vida
de todos mudou, nunca desapareceram. A vida avançou, mas o mundo ficou de
pernas para o ar. O medo que sentiu foi tão grande, tão intenso, que ele acabou
por escolher a profissão por causa disso. “O pai mata-me se eu não obedecer à
sua vontade”. – pensava, e depois viu-o, de arma na mão, a mãe aos gritos, os
irmãos abraçados, o Zé Paulo nu, vermelho como o sangue, a desafiar as forças
mais poderosas do universo, como ele gostava de afirmar.
É sempre assim, quando fala com o irmão.
As memórias invadem-no, descontroladas, e basta apenas pensar nele.
Zé Paulo não gosta que Rogério lhe ligue
com frequência. Tanta atenção só lhe faz mal. O tempo custa a passar.
O livro que ele lhe ofereceu é bom, mas os
medicamentos dão-lhe sono e passa mais tempo a dormitar do que a ler.
Encosta-se à janela. As vistas fazem-lhe
companhia. Adormece a olhar para a cidade, acorda e olha de novo a cidade.
O livro caiu para o chão, e ficou com as
páginas dobradas. Silencioso, de capa e contracapa forradas com imagens que
nada têm a ver com as palavras que guarda. Mentirosas. O universo pode ser
muita coisa, mas não mente, e ninguém o conseguiu ler, interpretar, equacionar,
nem tão pouco explicá-lo como merece.
Zé Paulo gosta de olhar o céu pela calada
da noite. As madrugadas são serenas, encantadoras. É de noite que consegue
pensar com maior clareza. O universo encontra-se numa permanente revolução, é
selvagem, livre, verdadeiro, maravilhoso. Inveja-o todos os dias, e depois já
não o inveja porque ele é o universo, maravilhoso em todas as suas
imperfeições.
- Vejo-te como és. Entendo o teu sorriso,
sei porque sorris e porque danças. Conheço-te, sei bem daquilo que és capaz.
Hoje, volto a lamentar não ter tido coragem suficiente para o ter derrotado
naquele dia. Já o teu poder, é infinito, e as tuas estradas são eternas. Ainda
não tinha chegado o meu tempo. O meu irmão está cada vez mais chato, mas sei
porque procede assim. Os buracos negros atraem-se. Ainda não consigo calcular
os efeitos que uma tal colisão provocaria. Quatro buracos negros gravitam ao
redor de um buraco branco. A quantidade de energia que ali se concentra é
inaudita, tão intensa e poderosa que resolvem não colidir. Observam-se,
movimentam-se, sugam tudo o que por lá se encontra, matéria, tempo, luz, e o
espaço que existe entre eles até nada mais restar. Depois, conversam uns com os
outros, sorriem, trocam impressões, aguardam, até que o universo desapareça no
que outrora foi o espaço que entre eles existiu. Este é um fenómeno que está a
acontecer neste preciso momento, lá fora, naquele lugar infinito que ninguém
consegue interpretar. Somos tudo aquilo que não conhecemos. Respeito a
sinceridade perturbadora do universo, foi ela quem me ensinou que eu sou o que
ainda não conheço.
O livro já não mora no chão, repousa em
cima da mesa da sala. A capa brilhante reflete o corpo nu de Zé Paulo, reflete
as estrelas do céu onde vai dançando uma meia-lua luminosa. O telemóvel vibra
ao receber uma mensagem do Rogério. As forças são desiguais, e para qualquer
lado que ele olhe, só encontra o que não desejava encontrar. O livro voou pela
janela, desgovernado, como um pássaro ferido.
O telemóvel volta a tocar.
O Lopes não desiste.
Precisa de falar urgentemente com o
escritor.
É preciso começar a tratar da capa.
Rui sorri ao imaginá-la com uma fotografia
do prédio em frente.
Na nova cidade, trinta são as janelas do
edifício.
Em cada janela dança uma bailarina nua.
São pérolas de corpos perfeitos a anunciar
prazer.
Os bombeiros, as ambulâncias e a polícia
chegam ao local da explosão. As pessoas são afastadas e cria-se um perímetro de
segurança. O fumo negro eleva-se nos céus. O universo é feito de alinhamentos,
de fenómenos incompreensíveis a que alguns chamam coincidências.
Carla vê, mas não quer acreditar.
Hoje, o universo transformou-se no seu
maior amigo.

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