quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O ILUMINADO REFÚGIO DAS PALAVRAS



Cada ano, cada mês, cada dia, enche-nos de novidades, povoa-nos o espírito com dezenas de inícios, com centenas de enredos, com milhares de histórias por contar.
Vejo um escritor a trabalhar com afinco na sua obra. Regressa às páginas que já escreveu para confirmar ideias, para verificar se tudo bate certo. Escreve num caderno de capa negra com folhas amareladas. Algumas estão soltas no interior. Serão esboços, compassos da partitura que constrói. É mais uma obra à espera de quem a encontre, com personagens que vagueiam, que existem ou existiram, e que o escritor desembrulha em frases no papel. O escritor regressa, de novo, a páginas anteriores. Terá mais certezas do que eu, pois é bem mais rápido com a caneta. Relê palavras passadas para compor as do presente. Está curvado sobre o caderno aberto, mergulhado na folha que escrevinha. Completa mais uma linha e inicia a seguinte. Não terá setenta anos. Tem barba grisalha aparada, bem tratada, de alguns dias, e o cabelo curto, igualmente cinzento.
O escritor segue com a sua tarefa, a bom ritmo. Folheia as páginas, relê frases antigas, faz crescer a obra com as novas que lhe acrescenta. Veste roupa negra, o mostrador do relógio de pulso é negro, o casaco que tem pelas costas é negro, como as calças, as meias, os sapatos, a camisola. Os dedos estão despidos, as mãos trazem as marcas do tempo, e tratam as folhas do caderno com primor. O escritor segue a sua dança, continua a procurar o novo no antigo.
O iluminado refúgio das palavras onde nos abrigamos, torna-nos anónimos, quase invisíveis. Habituamo-nos a observar, com a atenção devida, os detalhes dos dias. Os sorrisos de quem chega, a alegria de quem aguarda, os olhos atentos e concentrados de quem estuda, o ar ausente de quem conversa ao telefone, as rugas de expressão de quem lê apontamentos, o ar preocupado de quem pensa.
O escritor está concentradíssimo aos comandos do manuscrito. Quem será? Que história estará a escrever?
- Quando puderes, dá-me uma apitadela, nem que seja às quatro da manhã. – escuta Rui atrás de si.
- Ouviste? Se quiseres, quando puderes, dá-me uma apitadela. – insiste o companheiro invisível.
- Tu queres que eu te ligue? E como é que um mortal contacta alguém que não se encontra no mundo dos vivos. – questiona Rui a falar para o ar.
- Repara! Olha como o escritor lê para si, baixinho, as palavras que escreveu. Deve ser poeta. As linhas do caderno estão preenchidas por palavras que formam poemas. O escritor é alto, tão alto como tu. Levantou-se, e entrou na livraria. E se estivesse apenas a escrever um livro de atas?
- Apetece-me estrangular-te! Se te visse, apertava-te o pescoço. Estás parvo ou quê? O homem é escritor, não tenho a mais pequena dúvida. Não vejo como é que esta conversa me pode ajudar a construir a obra, perdido como estou no meio de tantos inícios delirantes.

A noite estava fria, as vozes gritavam alto, tão alto, que o universo inteiro estava prestes a implodir.
José Paulo levantou-se, a meio da noite, com a maior das confusões instalada na cabeça. Desceu até ao corredor do rés-do-chão, avançou para a casa de banho. Fechou-se à chave lá dentro, e entrou na banheira onde se encolheu. Esperou que a barulheira desaparecesse. No dia anterior o pai, mais uma vez, discutiu com o Alexandre, com o Rogério, discutiu consigo e até com a mãe, que descompôs usando argumentos absurdos. Nada do que ele ou os irmãos faziam estava bem feito. A vontade suprema do senhor doutor Ezequiel Sepúlveda prevalecia, no final, acima de todas as outras.
Zé Paulo sentiu um formigueiro quente a nascer-lhe no peito, que alastrou pelo corpo todo. Eis que as galáxias mais distantes se preparavam para lhe proporcionar explicações acerca do funcionamento do universo. Enquanto isso não acontecia, despiu-se, largou o pijama e os chinelos no chão, abriu a porta, e voltou ao piso superior onde todos dormiam. As mãos eram a única parte do corpo que não ardia. O cabelo vermelho, como a lava do Vesúvio adormecido, iluminou o quarto dos pais mal abriu a porta. A mãe moveu-se na cama, o pai manteve-se quieto. O pescoço de Ezequiel Sepúlveda foi apertado por dez tentáculos poderosos. Deolinda, impávida, viu a sua tez mudar para um branco imaculado. O marido estava de olhos muito abertos, avermelhados com a dor e a surpresa. Já Alexandre corria em socorro do pai e do irmão, quando um grito estridente se soltou da pequena senhora Deolinda, que esbracejava como se estivesse possuída por um demónio qualquer. Rogério saiu do seu quarto e viu os irmãos abraçados. Zé Paulo chorava, desnudado. Explicava ao irmão Alexandre que o universo não resistiria às alterações profundas causadas pelo nascimento de um novo buraco negro. Os dois irmãos desceram as escadas num estado muitíssimo alterado.
O pai surgiu, desvairado, com uma arma na mão, e Deolinda gritou, com voz rouca, as palavras que nunca mais esqueceu:
- Se te atreveres a seguir atrás dos nossos filhos de pistola em punho, juro que quem te mata sou eu!

- Helen, it´s me, mum! Guess what? Your sister just had a baby! It’s a girl!
O sorriso da jovem irlandesa iluminou a carruagem. A chuva cai, mas o coração da pianista está mais feliz do que nunca.
- Really? How marvelous! I’m so, so happy. Thanks mum, for this wonderful news.

O escritor saiu, levantou-se da mesa onde escrevia, entrou na livraria e desapareceu.
- O que achas que está a acontecer? Ando baralhado. Tu e as minhas vozes não me dão qualquer ajuda
A voz do companheiro improvável não responde. A janela da sala mostra imagens de outra cidade. Os prédios estão destruídos, a guerra escuta-se do outro lado da vidraça. Escombros, um amontoado de pedras, de ferros, de detritos. Rebentamentos e explosões são a música de fundo deste cenário desolador. O raide aéreo deixou sinais evidentes. A chacina está espalhada por toda a parte. Há muitas vítimas e poucos ou nenhuns meios para as socorrer.
- Quantas mães estão, neste preciso momento, a chorar as mortes dos filhos? – pergunta o companheiro improvável. – Quantas?


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