Cada ano, cada mês, cada dia, enche-nos de
novidades, povoa-nos o espírito com dezenas de inícios, com centenas de
enredos, com milhares de histórias por contar.
Vejo um escritor a trabalhar com afinco na
sua obra. Regressa às páginas que já escreveu para confirmar ideias, para
verificar se tudo bate certo. Escreve num caderno de capa negra com folhas
amareladas. Algumas estão soltas no interior. Serão esboços, compassos da
partitura que constrói. É mais uma obra à espera de quem a encontre, com
personagens que vagueiam, que existem ou existiram, e que o escritor
desembrulha em frases no papel. O escritor regressa, de novo, a páginas
anteriores. Terá mais certezas do que eu, pois é bem mais rápido com a caneta.
Relê palavras passadas para compor as do presente. Está curvado sobre o caderno
aberto, mergulhado na folha que escrevinha. Completa mais uma linha e inicia a
seguinte. Não terá setenta anos. Tem barba grisalha aparada, bem tratada, de
alguns dias, e o cabelo curto, igualmente cinzento.
O escritor segue com a sua tarefa, a bom
ritmo. Folheia as páginas, relê frases antigas, faz crescer a obra com as novas
que lhe acrescenta. Veste roupa negra, o mostrador do relógio de pulso é negro,
o casaco que tem pelas costas é negro, como as calças, as meias, os sapatos, a
camisola. Os dedos estão despidos, as mãos trazem as marcas do tempo, e tratam
as folhas do caderno com primor. O escritor segue a sua dança, continua a
procurar o novo no antigo.
O iluminado refúgio das palavras onde nos
abrigamos, torna-nos anónimos, quase invisíveis. Habituamo-nos a observar, com
a atenção devida, os detalhes dos dias. Os sorrisos de quem chega, a alegria de
quem aguarda, os olhos atentos e concentrados de quem estuda, o ar ausente de
quem conversa ao telefone, as rugas de expressão de quem lê apontamentos, o ar
preocupado de quem pensa.
O escritor está concentradíssimo aos
comandos do manuscrito. Quem será? Que história estará a escrever?
- Quando puderes, dá-me uma apitadela, nem
que seja às quatro da manhã. – escuta Rui atrás de si.
- Ouviste? Se quiseres, quando puderes,
dá-me uma apitadela. – insiste o companheiro invisível.
- Tu queres que eu te ligue? E como é que
um mortal contacta alguém que não se encontra no mundo dos vivos. – questiona
Rui a falar para o ar.
- Repara! Olha como o escritor lê para si,
baixinho, as palavras que escreveu. Deve ser poeta. As linhas do caderno estão
preenchidas por palavras que formam poemas. O escritor é alto, tão alto como
tu. Levantou-se, e entrou na livraria. E se estivesse apenas a escrever um
livro de atas?
- Apetece-me estrangular-te! Se te visse,
apertava-te o pescoço. Estás parvo ou quê? O homem é escritor, não tenho a mais
pequena dúvida. Não vejo como é que esta conversa me pode ajudar a construir a
obra, perdido como estou no meio de tantos inícios delirantes.
A noite estava fria, as vozes gritavam
alto, tão alto, que o universo inteiro estava prestes a implodir.
José Paulo levantou-se, a meio da noite,
com a maior das confusões instalada na cabeça. Desceu até ao corredor do
rés-do-chão, avançou para a casa de banho. Fechou-se à chave lá dentro, e
entrou na banheira onde se encolheu. Esperou que a barulheira desaparecesse. No
dia anterior o pai, mais uma vez, discutiu com o Alexandre, com o Rogério,
discutiu consigo e até com a mãe, que descompôs usando argumentos absurdos.
Nada do que ele ou os irmãos faziam estava bem feito. A vontade suprema do
senhor doutor Ezequiel Sepúlveda prevalecia, no final, acima de todas as
outras.
Zé Paulo sentiu um formigueiro quente a
nascer-lhe no peito, que alastrou pelo corpo todo. Eis que as galáxias mais
distantes se preparavam para lhe proporcionar explicações acerca do
funcionamento do universo. Enquanto isso não acontecia, despiu-se, largou o
pijama e os chinelos no chão, abriu a porta, e voltou ao piso superior onde
todos dormiam. As mãos eram a única parte do corpo que não ardia. O cabelo
vermelho, como a lava do Vesúvio adormecido, iluminou o quarto dos pais mal
abriu a porta. A mãe moveu-se na cama, o pai manteve-se quieto. O pescoço de
Ezequiel Sepúlveda foi apertado por dez tentáculos poderosos. Deolinda,
impávida, viu a sua tez mudar para um branco imaculado. O marido estava de
olhos muito abertos, avermelhados com a dor e a surpresa. Já Alexandre corria
em socorro do pai e do irmão, quando um grito estridente se soltou da pequena
senhora Deolinda, que esbracejava como se estivesse possuída por um demónio
qualquer. Rogério saiu do seu quarto e viu os irmãos abraçados. Zé Paulo
chorava, desnudado. Explicava ao irmão Alexandre que o universo não resistiria
às alterações profundas causadas pelo nascimento de um novo buraco negro. Os dois
irmãos desceram as escadas num estado muitíssimo alterado.
O pai surgiu, desvairado, com uma arma na
mão, e Deolinda gritou, com voz rouca, as palavras que nunca mais esqueceu:
- Se te atreveres a seguir atrás dos
nossos filhos de pistola em punho, juro que quem te mata sou eu!
- Helen, it´s me, mum! Guess what? Your sister just had a baby! It’s a girl!
O sorriso da jovem irlandesa iluminou a
carruagem. A chuva cai, mas o coração da pianista está mais feliz do que nunca.
- Really? How marvelous! I’m so, so happy. Thanks mum, for this wonderful
news.
O escritor saiu, levantou-se da mesa onde
escrevia, entrou na livraria e desapareceu.
- O que achas que está a acontecer? Ando
baralhado. Tu e as minhas vozes não me dão qualquer ajuda
A voz do companheiro improvável não
responde. A janela da sala mostra imagens de outra cidade. Os prédios estão
destruídos, a guerra escuta-se do outro lado da vidraça. Escombros, um
amontoado de pedras, de ferros, de detritos. Rebentamentos e explosões são a
música de fundo deste cenário desolador. O raide aéreo deixou sinais evidentes.
A chacina está espalhada por toda a parte. Há muitas vítimas e poucos ou
nenhuns meios para as socorrer.
- Quantas mães estão, neste preciso
momento, a chorar as mortes dos filhos? – pergunta o companheiro improvável. –
Quantas?

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