Fogem-lhe as palavras, como as vidas das
personagens que tenta relacionar.
O duche está a saber-lhe melhor do que um
sonho.
Rui regressou da cidade infernal sem saber
como. Quais serão os motivos que levam o ajudante invisível a visitar esses
lugares?
- Mentira! É mentira! Tu sabes bem o que
sentiste quando te aventuraste pela cidade.
O apartamento não sofreu danos. Os móveis,
mesas, cadeiras, prateleiras, a aparelhagem, o televisor, as coleções de
livros, filmes e discos, tudo está nas devidas condições. Apenas a tampa da
caneta com que escreve se encontra abandonada no meio do chão, junto às pernas
do sofá. Nenhum projétil danificou o edifício, foi como se aquele horror imenso
não tivesse acontecido.
Rui prende a toalha à volta da cintura,
vai até à sala e olha a vista da janela. Uma jovem nua rabisca uma folha num
dos apartamentos do prédio em frente. A bela ruiva não deve ter dado conta de
que a janela está tão aberta que lhe publicita a figura.
- Devo estar mesmo a sonhar! – exclama Rui
quase a gritar.
Tal como a sua irlandesa, a jovem do
prédio em frente não se apercebeu que está nua perante o mundo, e que este lhe
agradece a distração.
- Uma maravilha, Rui! Repara como são
perfeitos aqueles seios apetitosos de generosas proporções. Uns mamilos tenros,
pele branca, cabelos longos e molhados a iluminarem-lhe os ombros, as clavículas,
e as faces do rosto delgado.
Um anjo branco de cabelos húmidos lançados
sobre uns ombros largos, tocam-lhe na cara formosa, descem pelas clavículas
vincadas até aos seios perfeitos. A rapariga não dá conta que está a ser
observada do prédio do escritor. Rui sabe que ela nunca antes se deixou ver.
Ele tão pouco se recorda do prédio existir ali naquele lugar.
- É mesmo maravilhosa, Rui! E agora, prepara-te,
porque em todas as janelas do novo edifício vão surgir jovens raparigas, nuas,
provocantes, de todas as raças, com cabelos longos e molhados, de seios e
mamilos pecaminosos. Inspira-te, inspira-te, inspira-te nesta visão,
inspira-te, sai para as ruas, vai percorrer as ruelas e calçadas desta nova
cidade.
Os sons estão de regresso, e envolvem o
escritor. Chegam de um lugar ainda distante. Apitos, primeiro, rumores, de
seguida, até que a surdez é vencida por ruídos abafados, sons idênticos aos
provocados por uma chuvada intensa e que aumentam à medida que as janelas do
prédio da frente se vão abrindo.
Mais de trinta mulheres despidas surgem às
janelas, montras de néon colorido onde publicitam os corpos perfeitos.
Improvisam passos de dança, em posses ousadas e sedutoras.
- Que cidade é esta? – pergunta o escritor,
ainda aos berros, perante o insólito espetáculo.
- Gostas? É uma verdadeira animação!
Vai-te vestir, ou preferes andar assim pelas ruas da cidade. Vem, vamos
festejar, que tu bem precisas. Passas a maior parte do teu tempo fechado nesses
pensamentos, sempre a inventar personagens. Vem para a festa, vamos ter com
aquelas fantásticas mulheres que ali dançam para nós. Esquece a cidade da
guerra, esquece a cidade dos pobres e dos que apenas sobrevivem, esquece a
cidade dos que querem ir para a guerra para fugir das guerras da sua própria
casa. Foge, foge até junto das bailarinas, refugia-te nos seus colos e seios
perfumados, nos lábios doces e carnudos, nas coxas sensuais e nas nádegas
roliças. Anda, vamos afogar as mágoas antes que a cidade desapareça.
O invisível está alterado. Promove a
expedição ao edifício do prazer para espevitar a alma do escritor. Até que
ponto a experiência o conseguirá inspirar? Pode ser que isto ajude, pois a obra
está mesmo muito atrasada.
Os sábados quentes de Isilda e Anacleto
acabaram nas bocas do mundo.
Isilda ganhou uma fama que não desejava, e
que ultrapassou as fronteiras da paróquia, da freguesia, do concelho. Quando a
história chegou aos ouvidos do senhor bispo, chamou-lhe puta do demónio com a
mesma rapidez com que o pecado lhe foi relatado pela beata do costume.
- Puta do demónio, são umas putas do
demónio e merecem as chamas do inferno! – bradava o ilustríssimo prelado,
enquanto se benzia sentado na sanita. - Mulher vadia, mas que puta do demónio,
Deus me perdoe…

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