quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A MENINA MAIS LEVE DO MUNDO


As bombas continuam a cair.
Sem aviso prévio, alguém começa a disparar no escuro.
Rui está deitado, sem escutar, só cheira, e observa os clarões provocados pelas rajadas dos atiradores. Onde estará escondido o “companheiro”? O escritor não o vê, porque está surdo. O invisível está aos berros desde que ele voou projetado pelo impacto das bombas.
São como fantasmas, sombras de outro mundo. Rui revê o mesmo filme por mais quatro vezes. As personagens repetem as deixas, os movimentos, os sentimentos, sentem os mesmos dissabores, mas a cada repetição entende melhor as ideias do realizador. As cenas foram realizadas com mestria, e foram montadas com sabedoria para que a história acabasse por sobressair. O filme é o mesmo, mas a cada nova visualização, sequência brilhante após sequência brilhante, Rui capta os detalhes que antes lhe tinham escapado. Como em todas as histórias, o final não é o fim, apenas encerra o capítulo, ou indicia o novo que alguém, depois, realizará.
Vidas vulgares escondem histórias extraordinárias, porque todas as vidas são excecionais. Tudo se move em câmara lenta. As balas atravessam o ar, cruzam-se em diferentes direções, embatem com violência nas carcaças destroçadas dos edifícios, penetram tapumes de contraplacado e gesso, furam tetos falsos, carros destruídos e os cadáveres que estão ao lado do escritor.
- SAI! Anda, levanta-te! Sai daí, sai depressa daí! Isto não é um sonho, não é um filme… LEVANTA-TE ANTES QUE TE MATEM! Não me consegues ver, nunca me conseguirás ver, e eu nunca salvei ninguém enquanto fui vivo, nunca. SAI DAÍ, MERDA! MEXE-TE! Resiste à tentação de te deixares ficar deitado à espera da morte. RESISTE! Não faças como eu… FODA-SE! RESISTE!!!!!!
Rui continua surdo a ver os filmes. Está deliciado com o voo das balas em câmara lenta. Traçam perfeitas linhas luminosas na escuridão da cidade arrasada.

- Foi o teu irmão que assim decidiu! No próximo verão, vai regressar de vez a Portugal.
Augusto recebe um abraço e um beijo da filha, um abraço e dois beijos do neto, um olhar espantado e de estranheza de Filipa, um olhar de contentamento de Joel.
Calados, dirigem-se para o parque de estacionamento do aeroporto. Agora não é o momento apropriado para explicações ou esclarecimentos.
- O voo correu bem, avô? Não teve medo de andar de avião? – avança Joel para desanuviar o peso dos silêncios.
- O homem não foi feito para voar! É só isso que eu te digo, se assim fosse, teríamos nascido com asas. Mas teve de ser… teve mesmo de ser! – responde Augusto numa posse ministerial. – Paris é uma cidade confusa, grande e confusa. Digam lá o que disserem, há coisas que um velho tem dificuldade em compreender. Ele há coisas que um velho, como eu, tem mesmo muita dificuldade em entender…
Susana e Joel olham para o pai e avô, cheios de vontade de lhe arrancarem satisfações. Travam, a tempo, as perguntas, como se tivessem ensaiado tudo com a antecedência devida.
Augusto para, acende um cigarro para desconforto de Filipa.
- Não digas nada, rapariga, não comeces com as tuas coisas. Aqui já se pode fumar, não é verdade? Vão arrumando as coisas no carro, que eu já venho.
O ano novo continua tão igual ao que já passou.

Dançar, só lhe apetecia dançar. Sempre que Madalena recorda os dias passados na Beira, a maravilhosa piscina do hotel, e os belos passeios, relembra, acima de tudo, a brincadeira preferida do pai. Ao som da orquestra do hotel, os senhores e as senhoras entretinham-se em danças de salão após as refeições. O pai pegava-lhe ao colo, com uma facilidade incrível, tão incrível que ela sentia-se a menina mais leve do mundo. Depois, ao som de Glenn Miller, deslizava com ela pela pista, rodopiando uma eternidade.
Este ano, ela e o marido comemoram bodas de cristal, mas o Rogério tem andado alterado. Madalena não sabe se é do trabalho, se são os miúdos, se é do congresso, se foi do estressante fim-de-ano, passado com o Zé Paulo, se é da rotina, se é só do tempo que tem trazido toda a gente meio deprimida, ou se é por causa de si.
- Doutora, venha depressa. A doente da cama nove voltou a ter convulsões, e desta vez são mais fortes que as anteriores. – exclama a enfermeira Nádia.
Madalena só queria voltar a sentir-se, por um breve instante, tão leve e tão feliz como naqueles dias em que era a menina mais leve do mundo.
- E isso foi antes ou depois de lhe terem dado os medicamentos?
Madalena está arrependida do cigarro que acaba de fumar. Tinha decidido deixar de o fazer, tem de deixar de o fazer.
A enfermeira Nádia dá-lhe conta do estado da doente da cama nove, mas a médica está distraída. Talvez não seja boa ideia dar a novidade ao Rogério no dia do aniversário. A notícia da sua gravidez pode provocar uma reação contrária à desejada, e Madalena resolve adiar para um outro dia a importante informação.

O “invisível” já não consegue gritar.
Rui permanece deitado.
Os disparos terminaram.
A rua ficou tranquila.
As linhas luminosas deixaram de riscar o espaço cinzento-escuro da madrugada.
- Volta, por favor, volta para dentro de casa. Se continuares aí fora eu não te poderei salvar.
O mundo volta a girar à mesma velocidade.
Os cadáveres são como fantasmas, são sombras de um outro mundo.
- Tenho de me recompor. Tenho de sair daqui e incluir esta história na minha obra. Há infernos espalhados por toda a parte, e sombras e margaridas que começam a murchar. Não vale a pena avançar pelas ruas desta cidade. O medo e a morte são a única companhia dos seus habitantes.

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