quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O FIRMAMENTO É O MAIOR DOS CEMITÉRIOS


- Então, porque não escreves? Tem sido difícil encontrar inspiração? A tua obra não avança, mas tu sabes que tens de escrever. Se não o fizeres, a editora deixará de ter confiança em ti. O que farás se isso acontecer? Andas desmotivado, distraído, e a obra está cada vez mais atrasada. Esta nova cidade é a prova de que o mundo jamais deixará de ser um lugar violento. A verdadeira natureza humana revela-se nestes conflitos. Nada lhe resiste. Pior do que a destruição visível, é a que permanecerá marcada para sempre nas memórias da humanidade.
Rui desconhece como lhe chegou a paisagem destruída. A esta situação não será alheia a intervenção do companheiro invisível. Ele ainda não disse quem é, ou quem foi, e menos informou acerca das razões que o levaram a precipitar-se da ponte abaixo. A obra não avança. Que novidade! Cada palavra que escreve, uma dor, cada linha que compõe, um tormento. Porque lhe foge a inspiração?
Na nova cidade não existem flores, as ruas estão destruídas, a morte alastra como uma doença. Os caças bailam nos céus como relâmpagos, e durante a noite o efeito que causam é indescritível.
- Escreve! Deixa de pensar nisso e escreve. Esquece os bombardeiros, a destruição, as vítimas que provocam, o cheiro nauseabundo que se propaga, a escuridão feita de fumo e de cinzas, o frio intenso causado pelo medo, as fachadas arruinadas… esquece esta merda toda, e escreve! O que é a vida de um escritor senão a obra que cria? Quanto menos pensar, mais depressa consegue fazer crescer um romance. Faz o que te digo, escreve!
O “invisível” tem razão. Cada segundo que passa é uma sílaba de uma nova palavra que o escritor não regista. As personagens da história já a viveram, ou estão a vivê-la neste instante. Rui devia estar a fazer aquilo que lhe compete, ou seja, escrever acerca das vidas desses outros.

O dia ficou mais alegre depois da chuvada. Frio, mas azul. A notícia do nascimento da sobrinha alegrou Helen. A irmã acaba de ser mãe, de novo, e mais depressa do que se imaginava. Deirdre tinha feito tantos planos, e agora já é mãe pela terceira vez. Desta feita, chegou a menina que tanto desejara.
A pianista ruiva deixa-se embalar pelas sinfonias da manhã, fecha os olhos, e vê a irmã a dar à luz, como num filme. A música de fundo foi composta por si, de propósito para o evento. Deirdre grita, e a música da irmã embala-lhe as súplicas, enquadra a azáfama dos médicos e das enfermeiras, ilustra a chegada da menina ao mundo. O ruído compassado do comboio embrulhado como presente na serenata da pianista. A música de dois pianos envolve a sobrinha quando o cordão umbilical é cortado, e sobe de intensidade quando ela solta o primeiro choro com fulgor. A melodia de Helen transporta-a até junto da irmã. A menina é lindíssima, e ela não podia ter recebido melhor notícia esta manhã.
A terra continua a movimentar-se, com ela as nuvens, os mares e os oceanos. Junto aos pilares da ponte, as luzes das viaturas da polícia e das ambulâncias estão refletidas nas vidraças húmidas das carruagens. Helen não se apercebe, continua de olhos fechados a assistir ao filme do nascimento da sobrinha. O mundo avança em câmara lenta.

- Estamos os dois aqui sentados, e toda a luz está a ser sugada com violência para o interior do buraco negro. O pai precisava de ser desligado, Alexandre! O nosso pai é um verdadeiro buraco negro, bem mais poderoso do que podes imaginar. A luz, toda a luz, desaparece na sua presença. Enquanto estive na banheira, entendi que o universo só voltaria a ganhar equilíbrio se o conseguisse fazer. As equações giravam ao meu redor, uma atrás das outras, e eram cada vez mais complexas. Não tive tempo para as transcrever, mas faziam todo o sentido. Foi então que senti um odor a perfume antigo a espalhar-se pelo quarto-de-banho. Olhei-me ao espelho e não me reconheci. Não imaginas como eu estava velho, cansado e tão gasto. Despi-me. Senti o corpo com a mesma idade do rosto que o espelho me mostrava. Aquele era eu! O nosso pai sugou o tempo e transformou-me, mano! O buraco negro chupa tudo o que orbita em seu redor, e envelheceu-nos. Mas ele mantém-se igual ao que sempre foi. Negro, impávido, poderoso, inflexível, e engole tudo com sofreguidão. Não te parece que eu tinha de fazer alguma coisa? O que me dizes, mano? Fiz bem? As fórmulas eram seguras, indicavam as soluções com clareza, diziam que o tempo acabaria por nos fazer desaparecer no interior do vórtice poderoso.
A noite estava estrelada.
Alexandre não sabia o que fazer, nem o que dizer ao irmão. Nenhuma das estrelas pode ajudar o Zé Paulo, até porque a maioria delas já não existe. O firmamento é o maior dos cemitérios, e até de dia a luz do sol é mentirosa.
- Anda, vamos para dentro. Explica-me, com mais calma, o raciocínio que te levou a equacionar esta solução para o problema. Mas primeiro vais ter de te vestir.

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