segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

FLORES DE GUERRA



O mundo parou de rodar. Rui sente que tudo se imobilizou quando saiu porta fora rumo à cidade destruída.
- Que coragem! Sem conheceres o lugar, no meio desta escuridão, avanças determinado pelos escombros. Podias, ao menos, esperar que amanhecesse. Tem cuidado! O perigo é bem real, mesmo que penses de outra maneira. Queres acabar morto neste teu passeio? A tua obra mal começou, e eis que te atiras, desvairado, para as ruas desertas desta terra devastada. É isso que pretendes, que alguém te ataque, te fira de morte? Não sejas insensato, regressa ao teu local de trabalho, caso contrário, de que te serviu teres dado início ao romance? Tanta preocupação, tanta pesquisa e trabalho de preparação, e tudo isso para quê?
O mundo parou de rodar. O tempo não avança. Neste instante só existe uma conversa absurda ente o escritor e o companheiro invisível.
Rui hesita, mas tem de ver, com os seus olhos, até que ponto pode a barbaridade acontecer. Mantém-se inabalável nos seus propósitos, e avança às apalpadelas pelas escadas do prédio destruído.

- Pai, as pessoas com olhos verdes são traiçoeiras? – pergunta Jorge antes do pai se despedir junto ao portão da escola.
- Que disparate? Os teus colegas andam novamente a chatear-te? Não ligues a essas palermices, filho, não lhes ligues… e não te esqueças de dizer à professora que chegaste atrasado por causa do trânsito. Eu depois justifico a falta se for preciso.
Vasco lança um adeus ao filho, quase a fugir. O rapaz vê o carro do pai desaparecer na curva da estrada, sem vontade de enfrentar os colegas. Os gémeos Sepúlveda são mesmo parvos, e agora até a Catarina e o Martim já o provocam. Não tem pressa de ir para as aulas. Mas hoje, o que mais o preocupa, é a imagem daquele homem a passear na ponte. O Jorge ainda não arranjou explicação para o desaparecimento misterioso, e tem certeza de que o senhor não era um funcionário da manutenção. Calçava umas sapatilhas, vestia calças de ganga muito sujas, um blusão cinzento e um boné de pala verde e vermelho da seleção nacional. Tinha barba longa e uns cabelos compridos que desciam até metade da mochila preta que trazia às costas. Via-se logo que não era um trabalhador da ponte. O que raio estaria ele por lá a fazer? Jorge não consegue mesmo tirar o homem da cabeça, e decide o improvável.
- Vou até à ponte! Vou descobrir onde raio é que o homem se escondeu.
O passeio durará uma boa meia-hora até que ele chegue ao cruzamento que dá acesso ao tabuleiro da ponte. Depois, ainda são mais vinte a vinte e cinco minutos, sempre a andar, mas tem de ser. Jorge tem de resolver o mistério de uma vez por todas, e também não tem vontade nenhuma de enfrentar os colegas, que só o chateiam.

- Decidiste avançar, não foi? Estás com medo, quase apavorado, não sabes o que te impele para a aventura, mas decidiste avançar.
O “invisível” está preocupado com a expedição do escritor.
- As consequências da tua excursão noturna podem ser trágicas. Já pensaste nisso? – insiste a voz de quem não se vê.
Rui não recua um milímetro na resolução. O pior de tudo é este cheiro a morte que se alastrou desde que abriu a porta do apartamento. A escuridão, as pedras e o entulho são um mal menor.
O escritor avança às apalpadelas quando dois caças fazem de novo o mundo girar. As bombas explodem a poucos metros do local onde ele se encontra.
O mundo para de rodar.
Tudo se imobiliza.
Uma sirene aguda grita-lhe aos ouvidos, até ficar surdo.
Rui cai junto aos degraus da entrada do prédio, ao lado de três cadáveres.
- Era isto que querias? Foi para isto que decidiste avançar? Merda! Uma grande merda é o que é! E agora?
O raide foi rápido e mortal. Antes de desmaiar, sentiu a cabeça rebentar, o corpo a desligar-se, e as margaridas a florir no meio dos escombros.

Cada flor representa uma vida ceifada pela guerra.
- Não era isto que eu te queria mostrar, mas era isto que tu querias descobrir. Agora, despacha-te! Não deixes a obra abandonada. Antes das flores murcharem, tens de regressar à tua escrita. Recupera depressa, pois alguém pode matar-te de verdade.

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