O mundo parou de rodar. Rui sente que tudo se imobilizou
quando saiu porta fora rumo à cidade destruída.
- Que coragem! Sem conheceres o lugar, no meio desta
escuridão, avanças determinado pelos escombros. Podias, ao menos, esperar que
amanhecesse. Tem cuidado! O perigo é bem real, mesmo que penses de outra
maneira. Queres acabar morto neste teu passeio? A tua obra mal começou, e eis
que te atiras, desvairado, para as ruas desertas desta terra devastada. É isso
que pretendes, que alguém te ataque, te fira de morte? Não sejas insensato,
regressa ao teu local de trabalho, caso contrário, de que te serviu teres dado
início ao romance? Tanta preocupação, tanta pesquisa e trabalho de preparação,
e tudo isso para quê?
O mundo parou de rodar. O tempo não avança. Neste instante
só existe uma conversa absurda ente o escritor e o companheiro invisível.
Rui hesita, mas tem de ver, com os seus olhos, até que
ponto pode a barbaridade acontecer. Mantém-se inabalável nos seus propósitos, e
avança às apalpadelas pelas escadas do prédio destruído.
- Pai, as pessoas com olhos verdes são traiçoeiras? –
pergunta Jorge antes do pai se despedir junto ao portão da escola.
- Que disparate? Os teus colegas andam novamente a
chatear-te? Não ligues a essas palermices, filho, não lhes ligues… e não te
esqueças de dizer à professora que chegaste atrasado por causa do trânsito. Eu
depois justifico a falta se for preciso.
Vasco lança um adeus ao filho, quase a fugir. O rapaz vê o
carro do pai desaparecer na curva da estrada, sem vontade de enfrentar os
colegas. Os gémeos Sepúlveda são mesmo parvos, e agora até a Catarina e o
Martim já o provocam. Não tem pressa de ir para as aulas. Mas hoje, o que mais
o preocupa, é a imagem daquele homem a passear na ponte. O Jorge ainda não
arranjou explicação para o desaparecimento misterioso, e tem certeza de que o
senhor não era um funcionário da manutenção. Calçava umas sapatilhas, vestia
calças de ganga muito sujas, um blusão cinzento e um boné de pala verde e
vermelho da seleção nacional. Tinha barba longa e uns cabelos compridos que
desciam até metade da mochila preta que trazia às costas. Via-se logo que não
era um trabalhador da ponte. O que raio estaria ele por lá a fazer? Jorge não
consegue mesmo tirar o homem da cabeça, e decide o improvável.
- Vou até à ponte! Vou descobrir onde raio é que o homem se
escondeu.
O passeio durará uma boa meia-hora até que ele chegue ao
cruzamento que dá acesso ao tabuleiro da ponte. Depois, ainda são mais vinte a
vinte e cinco minutos, sempre a andar, mas tem de ser. Jorge tem de resolver o
mistério de uma vez por todas, e também não tem vontade nenhuma de enfrentar os
colegas, que só o chateiam.
- Decidiste avançar, não foi? Estás com medo, quase
apavorado, não sabes o que te impele para a aventura, mas decidiste avançar.
O “invisível” está preocupado com a expedição do escritor.
- As consequências da tua excursão noturna podem ser
trágicas. Já pensaste nisso? – insiste a voz de quem não se vê.
Rui não recua um milímetro na resolução. O pior de tudo é este
cheiro a morte que se alastrou desde que abriu a porta do apartamento. A escuridão,
as pedras e o entulho são um mal menor.
O escritor avança às apalpadelas quando dois caças fazem de
novo o mundo girar. As bombas explodem a poucos metros do local onde ele se
encontra.
O mundo para de rodar.
Tudo se imobiliza.
Uma sirene aguda grita-lhe aos ouvidos, até ficar surdo.
Rui cai junto aos degraus da entrada do prédio, ao lado de
três cadáveres.
- Era isto que querias? Foi para isto que decidiste
avançar? Merda! Uma grande merda é o que é! E agora?
O raide foi rápido e mortal. Antes de desmaiar, sentiu a
cabeça rebentar, o corpo a desligar-se, e as margaridas a florir no meio dos
escombros.
Cada flor representa uma vida ceifada pela guerra.
- Não era isto que eu te queria mostrar, mas era isto que
tu querias descobrir. Agora, despacha-te! Não deixes a obra abandonada. Antes
das flores murcharem, tens de regressar à tua escrita. Recupera depressa, pois
alguém pode matar-te de verdade.

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