quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CARRO ARMADILHADO




- Estivemos muito tempo à espera. O centro de saúde estava cheio de gente. Ele tem uma otite e está com a garganta muito inflamada. Já passámos pela farmácia para aviar as receitas. Foi outra meia hora perdida. Anda toda a gente doente. São quase duas da tarde e só agora vou fazer o almoço. E tu? A que horas podemos contar contigo para jantar?
Rui não pode saber, nunca sabe. As instalações que ainda tem para fazer podem demorar, e vão ocupá-lo, na pior das hipóteses, até às dez da noite. Depois tem a viagem de regresso. Atira uma hora, numa previsão, mas sem certezas.
- Não sei, Rita. Depois de Palmela ainda vou passar por Setúbal e Sesimbra. Talvez nove, nove e meia. Tu sabes como são estas coisas, mulher! O que importa é que o miúdo melhore. Amanhã quero ver se não tenho de voltar para estas bandas. Foi por isso que hoje sai mais cedo do que o habitual. Vou tentar chegar por volta das nove e meia, está bem.
O Rodrigo está cheio de fome. A caixa das bolachas ficou vazia e a mãe nunca mais se despacha. Apetece-lhe esparguete à bolonhesa. Na cantina da escola a comida nem sempre presta, mas hoje é a mãe que lhe vai cozinhar um dos seus pratos favoritos.
- Mãe, onde é que a avó guardou as bolachas?
- Nem penses que vais agora comer bolachas! Espera que eu faça o almoço, e tu tens de tomar o antibiótico logo a seguir. Estás a sentir-te melhor, é o Bruffen que está a fazer efeito.
Dona Carminda escuta uma porta a ser fechada com violência, e muitos gritos. O homem enorme com quem a menina Carla namora está aos berros, grita bem alto, com modos de um autêntico selvagem. A senhora passou a ter receio de se cruzar com o sujeito. O dia em que o viu pela primeira vez, ainda não lhe saiu da cabeça. Carminda ia a entrar no elevador, e ele saiu disparado levando-a à frente com a pressa. Uma besta de quase dois metros, com um corpanzil de meter respeito, uma cabeça grande, toda rapada, e um olhar taciturno. Anda sempre com uns óculos estranhos. Pela manhã, é o cão que não dá descanso, à tarde e à noite é o reboliço constante entre o brutamontes e a menina Carla.
- Olha, mãe! Que grande estrondo! O barulho veio outra vez lá de cima. - diz Rui de telecomando na mão.
- Não ligues. O homem é maluco, e perigoso. Lembras-te do que aconteceu ao carro quando fizemos queixa à polícia? Pode ser que um dia destes lhe aconteça alguma.
Porque terá a Carla arranjado um namorado assim? Se as coisas não melhorarem, alguém terá de voltar a fazer queixa às autoridades. O homem mete medo, e a Carla já não é a mesma. Meteu-se numa alhada de todo o tamanho. Não é difícil perceber o que se está a passar. Coitada da rapariga.
- Mais valia não abrires a boca! Pensas que estou para te aturar? Ai de ti que não estejas em casa quando eu voltar!
O homem carrega freneticamente no botão do elevador, bate na porta, dá-lhe pontapés, brada e repete asneiredos como se o mundo fosse parar se não o fizer.
- Merda de prédio, só um elevador para tantos pisos! Fechem a porta seus cabrões de merda! Fechem a porta senão parto-vos os cornos!
A vizinhança é obrigada a escutar os desaforos do animal. Hoje, o ataque de fúria foi bem mais audível.
Carla está refugiada na varanda do apartamento. Dali avista os outros prédios, outros casulos iguais ao seu, a avenida e o carro vistoso do Armando. Lembra-se da sua série favorita, recorda o episódio em que uma viatura explodiu quando o assassino rodou a chave na ignição. Talvez alguém se tenha lembrado de armadilhar o Audi vermelho durante a noite, quem sabe, talvez alguém se tenha lembrado de o fazer...
 

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