- Estivemos muito tempo à espera. O centro de saúde
estava cheio de gente. Ele tem uma otite e está com a garganta muito inflamada.
Já passámos pela farmácia para aviar as receitas. Foi outra meia hora perdida.
Anda toda a gente doente. São quase duas da tarde e só agora vou fazer o
almoço. E tu? A que horas podemos contar contigo para jantar?
Rui não pode saber, nunca sabe. As instalações que
ainda tem para fazer podem demorar, e vão ocupá-lo, na pior das hipóteses, até às
dez da noite. Depois tem a viagem de regresso. Atira uma hora, numa previsão,
mas sem certezas.
- Não sei, Rita. Depois de Palmela ainda vou passar
por Setúbal e Sesimbra. Talvez nove, nove e meia. Tu sabes como são estas
coisas, mulher! O que importa é que o miúdo melhore. Amanhã quero ver se não
tenho de voltar para estas bandas. Foi por isso que hoje sai mais cedo do que o
habitual. Vou tentar chegar por volta das nove e meia, está bem.
O Rodrigo está cheio de fome. A caixa das bolachas
ficou vazia e a mãe nunca mais se despacha. Apetece-lhe esparguete à bolonhesa.
Na cantina da escola a comida nem sempre presta, mas hoje é a mãe que lhe vai
cozinhar um dos seus pratos favoritos.
- Mãe, onde é que a avó guardou as bolachas?
- Nem penses que vais agora comer bolachas! Espera que
eu faça o almoço, e tu tens de tomar o antibiótico logo a seguir. Estás a
sentir-te melhor, é o Bruffen que está a fazer efeito.
Dona Carminda escuta uma porta a ser fechada com
violência, e muitos gritos. O homem enorme com quem a menina Carla namora está
aos berros, grita bem alto, com modos de um autêntico selvagem. A senhora
passou a ter receio de se cruzar com o sujeito. O dia em que o viu pela
primeira vez, ainda não lhe saiu da cabeça. Carminda ia a entrar no elevador, e
ele saiu disparado levando-a à frente com a pressa. Uma besta de quase dois
metros, com um corpanzil de meter respeito, uma cabeça grande, toda rapada, e
um olhar taciturno. Anda sempre com uns óculos estranhos. Pela manhã, é o cão
que não dá descanso, à tarde e à noite é o reboliço constante entre o
brutamontes e a menina Carla.
- Olha, mãe! Que grande estrondo! O barulho veio outra
vez lá de cima. - diz Rui de telecomando na mão.
- Não ligues. O homem é maluco, e perigoso. Lembras-te
do que aconteceu ao carro quando fizemos queixa à polícia? Pode ser que um dia
destes lhe aconteça alguma.
Porque terá a Carla arranjado um namorado assim? Se as
coisas não melhorarem, alguém terá de voltar a fazer queixa às autoridades. O
homem mete medo, e a Carla já não é a mesma. Meteu-se numa alhada de todo o
tamanho. Não é difícil perceber o que se está a passar. Coitada da rapariga.
- Mais valia não abrires a boca! Pensas que estou para
te aturar? Ai de ti que não estejas em casa quando eu voltar!
O homem carrega freneticamente no botão do elevador,
bate na porta, dá-lhe pontapés, brada e repete asneiredos como se o mundo fosse
parar se não o fizer.
- Merda de prédio, só um elevador para tantos pisos!
Fechem a porta seus cabrões de merda! Fechem a porta senão parto-vos os cornos!
A vizinhança é obrigada a escutar os desaforos do
animal. Hoje, o ataque de fúria foi bem mais audível.
Carla está refugiada na varanda do apartamento. Dali avista os outros
prédios, outros casulos iguais ao seu, a avenida e o carro vistoso do Armando.
Lembra-se da sua série favorita, recorda o episódio em que uma viatura explodiu
quando o assassino rodou a chave na ignição. Talvez alguém se tenha lembrado de
armadilhar o Audi vermelho durante a noite, quem sabe, talvez alguém se tenha
lembrado de o fazer...

Sem comentários:
Enviar um comentário