quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

AS TECLAS INVISÍVEIS DO PIANO MÁGICO



As letras estão a ficar cada vez mais difíceis de entender.
As mãos tremem-lhe quando toca nos vidros da janela da sala, Rui levantou-se, sacudiu o pó, sacudiu-se com a intenção de sentir-se vivo. Dá conta da sua surdez.
O momento em que os rebentamentos aconteceram surge-lhe em flashes desfocados. Voou, desmaiado, e uma mão previdente depositou-o, ileso, naquela posição. Aquela ainda não era a sua hora.
Testemunhou a madrugada na cidade, deitado ao lado dos cadáveres sem se conseguir mexer. Demorou a entender o que se tinha passado. Demorou a noite inteira a regressar, não queria regressar, depois já queria, depois não queria, e fechou os olhos para descansar.
- Testemunhei a noite desta cidade vitimada pela guerra e pela ruína humana. Não consigo focar, está tudo turvo, e eu sinto-me o último dos habitantes, sou o único sobrevivente do massacre. Porque não tive a mesma sorte dos outros?
As letras estão a ficar cada vez mais difíceis de entender…
O companheiro improvável respira de alívio.
- BOM! Muito bom! Decidiste bem. Nem sabes como estava preocupado contigo. Os lugares para onde tenho de te levar, são-me impostos. O sol nasceu, um novo dia nasceu, brilhante, na nova cidade que vês da janela. Regressámos a Lisboa, mas não sei se é a mesma de onde saímos.
- Porra! Não ouço nada! NADINHA! Tremo como varas verdes e estou surdo. Vou tomar um banho antes de recomeçar a escrever.

Helen gosta de se recrear na banheira a olhar para as unhas pintadas dos dedos dos pés. Encolhe-se, mergulhada na água quente e perfumada, por um longo minuto. Emerge, bem devagar. A testa, primeiro, os olhos e o nariz, depois. Simula, com os pés, os movimentos ao piano. Aqueles dedos alvos de unhas rosa choque, bailam fora de água, percorrem as teclas invisíveis do mágico piano onde toca a obra inacabada. A irlandesa escuta a melodia, acompanhada por um coro masculino e a orquestra. Toca o instrumento com os pés, com as mãos, nua, quente, húmida, parcialmente submersa, perfumada, etérea, eterna. Nada a faz sentir-se mais viva e feliz, nada. A música acompanha-a sempre, a todas as horas de todos os dias.
Helen volta a mergulhar, volta a encontrar-se cara a cara com o silêncio. De olhos fechados, debaixo de água, toca com os pés no fundo da banheira, onde se encontram as teclas invisíveis do piano mágico. Toca duzentas novas notas da sua obra, duzentas notas que a fazem sair e correr para a folha de pauta musical, antes que o mundo a resolva fazer desaparecer.
O quarto e a casa de banho ganharam pegadas húmidas.
Helen não dá conta da janela aberta, não dá conta dos sorrisos de felicidade de quem olha para si do prédio em frente, enquanto passa a música para o papel, despida, como veio ao mundo.



- A música da pianista acompanha-a, como as minhas vozes. Helen é uma bela personagem para a obra.
- Tens razão, Rui. A tua pianista é mesmo uma “boa” personagem para o romance. Já me ouves, ou ainda estás surdo como uma porta? Que belo susto me pregaste. Quanto às “minhas vozes”, elas avisaram-me que, caso não te consiga auxiliar, estarei tramado para sempre. Não sei o que me pode acontecer, afinal de contas, morto, já eu estou! Não é verdade? Morto, já eu estou! – fala o invisível a olhar a nova Lisboa. - Nem sabes a visão que estás a perder. Anda até à sala, anda cá! Olha que miúda espetacular mora ali no prédio em frente. Espetacular! Uma vista assim não é para todos. És um felizardo. Agora já entendi onde te foste inspirar para construir a personagem da tua história.
Rui ainda não consegue escutar as palavras do companheiro invisível.
O duche sabe-lhe bem, o duche e este silêncio forçado.

- Tenho de lhe telefonar, tenho mesmo de ligar-lhe. Seria tão bom se o carro fosse mesmo pelos ares como na série.
Um estrondo violentíssimo abana o prédio, e os alarmes de dezenas de viaturas disparam em uníssono. Carla olha pelas vidraças da varanda e descobre que o local onde o Audi vermelho estava estacionado deixou de existir. Foi lá que nasceram estas densas nuvens de fumo negro.
Uma vítima, um homem viu a vida ser-lhe roubada, e um susto de morte para todos os que se encontravam ali perto. Uma sorte, um autêntico milagre não haver mais mortos, nem feridos. Diz, quem viu, que o senhor estava dentro do automóvel quando ele explodiu. Só pode ter sido uma bomba a causa deste acidente. Um atentado em plena Lisboa. O estrondo foi de tal magnitude, que logo uma multidão cercou o local do rebentamento.
Carla está incrédula a observar a nuvem escura, e sente-se fazer parte do elenco da sua série.

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