quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O ILUMINADO REFÚGIO DAS PALAVRAS



Cada ano, cada mês, cada dia, enche-nos de novidades, povoa-nos o espírito com dezenas de inícios, com centenas de enredos, com milhares de histórias por contar.
Vejo um escritor a trabalhar com afinco na sua obra. Regressa às páginas que já escreveu para confirmar ideias, para verificar se tudo bate certo. Escreve num caderno de capa negra com folhas amareladas. Algumas estão soltas no interior. Serão esboços, compassos da partitura que constrói. É mais uma obra à espera de quem a encontre, com personagens que vagueiam, que existem ou existiram, e que o escritor desembrulha em frases no papel. O escritor regressa, de novo, a páginas anteriores. Terá mais certezas do que eu, pois é bem mais rápido com a caneta. Relê palavras passadas para compor as do presente. Está curvado sobre o caderno aberto, mergulhado na folha que escrevinha. Completa mais uma linha e inicia a seguinte. Não terá setenta anos. Tem barba grisalha aparada, bem tratada, de alguns dias, e o cabelo curto, igualmente cinzento.
O escritor segue com a sua tarefa, a bom ritmo. Folheia as páginas, relê frases antigas, faz crescer a obra com as novas que lhe acrescenta. Veste roupa negra, o mostrador do relógio de pulso é negro, o casaco que tem pelas costas é negro, como as calças, as meias, os sapatos, a camisola. Os dedos estão despidos, as mãos trazem as marcas do tempo, e tratam as folhas do caderno com primor. O escritor segue a sua dança, continua a procurar o novo no antigo.
O iluminado refúgio das palavras onde nos abrigamos, torna-nos anónimos, quase invisíveis. Habituamo-nos a observar, com a atenção devida, os detalhes dos dias. Os sorrisos de quem chega, a alegria de quem aguarda, os olhos atentos e concentrados de quem estuda, o ar ausente de quem conversa ao telefone, as rugas de expressão de quem lê apontamentos, o ar preocupado de quem pensa.
O escritor está concentradíssimo aos comandos do manuscrito. Quem será? Que história estará a escrever?
- Quando puderes, dá-me uma apitadela, nem que seja às quatro da manhã. – escuta Rui atrás de si.
- Ouviste? Se quiseres, quando puderes, dá-me uma apitadela. – insiste o companheiro invisível.
- Tu queres que eu te ligue? E como é que um mortal contacta alguém que não se encontra no mundo dos vivos. – questiona Rui a falar para o ar.
- Repara! Olha como o escritor lê para si, baixinho, as palavras que escreveu. Deve ser poeta. As linhas do caderno estão preenchidas por palavras que formam poemas. O escritor é alto, tão alto como tu. Levantou-se, e entrou na livraria. E se estivesse apenas a escrever um livro de atas?
- Apetece-me estrangular-te! Se te visse, apertava-te o pescoço. Estás parvo ou quê? O homem é escritor, não tenho a mais pequena dúvida. Não vejo como é que esta conversa me pode ajudar a construir a obra, perdido como estou no meio de tantos inícios delirantes.

A noite estava fria, as vozes gritavam alto, tão alto, que o universo inteiro estava prestes a implodir.
José Paulo levantou-se, a meio da noite, com a maior das confusões instalada na cabeça. Desceu até ao corredor do rés-do-chão, avançou para a casa de banho. Fechou-se à chave lá dentro, e entrou na banheira onde se encolheu. Esperou que a barulheira desaparecesse. No dia anterior o pai, mais uma vez, discutiu com o Alexandre, com o Rogério, discutiu consigo e até com a mãe, que descompôs usando argumentos absurdos. Nada do que ele ou os irmãos faziam estava bem feito. A vontade suprema do senhor doutor Ezequiel Sepúlveda prevalecia, no final, acima de todas as outras.
Zé Paulo sentiu um formigueiro quente a nascer-lhe no peito, que alastrou pelo corpo todo. Eis que as galáxias mais distantes se preparavam para lhe proporcionar explicações acerca do funcionamento do universo. Enquanto isso não acontecia, despiu-se, largou o pijama e os chinelos no chão, abriu a porta, e voltou ao piso superior onde todos dormiam. As mãos eram a única parte do corpo que não ardia. O cabelo vermelho, como a lava do Vesúvio adormecido, iluminou o quarto dos pais mal abriu a porta. A mãe moveu-se na cama, o pai manteve-se quieto. O pescoço de Ezequiel Sepúlveda foi apertado por dez tentáculos poderosos. Deolinda, impávida, viu a sua tez mudar para um branco imaculado. O marido estava de olhos muito abertos, avermelhados com a dor e a surpresa. Já Alexandre corria em socorro do pai e do irmão, quando um grito estridente se soltou da pequena senhora Deolinda, que esbracejava como se estivesse possuída por um demónio qualquer. Rogério saiu do seu quarto e viu os irmãos abraçados. Zé Paulo chorava, desnudado. Explicava ao irmão Alexandre que o universo não resistiria às alterações profundas causadas pelo nascimento de um novo buraco negro. Os dois irmãos desceram as escadas num estado muitíssimo alterado.
O pai surgiu, desvairado, com uma arma na mão, e Deolinda gritou, com voz rouca, as palavras que nunca mais esqueceu:
- Se te atreveres a seguir atrás dos nossos filhos de pistola em punho, juro que quem te mata sou eu!

- Helen, it´s me, mum! Guess what? Your sister just had a baby! It’s a girl!
O sorriso da jovem irlandesa iluminou a carruagem. A chuva cai, mas o coração da pianista está mais feliz do que nunca.
- Really? How marvelous! I’m so, so happy. Thanks mum, for this wonderful news.

O escritor saiu, levantou-se da mesa onde escrevia, entrou na livraria e desapareceu.
- O que achas que está a acontecer? Ando baralhado. Tu e as minhas vozes não me dão qualquer ajuda
A voz do companheiro improvável não responde. A janela da sala mostra imagens de outra cidade. Os prédios estão destruídos, a guerra escuta-se do outro lado da vidraça. Escombros, um amontoado de pedras, de ferros, de detritos. Rebentamentos e explosões são a música de fundo deste cenário desolador. O raide aéreo deixou sinais evidentes. A chacina está espalhada por toda a parte. Há muitas vítimas e poucos ou nenhuns meios para as socorrer.
- Quantas mães estão, neste preciso momento, a chorar as mortes dos filhos? – pergunta o companheiro improvável. – Quantas?


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

AMOR, MEU AMOR!


Os corpos que antes se abraçaram e se uniram, estão de novo separados.
Um fogo imenso de labaredas vastíssimas, e os clamores de prazer ainda a ecoar pelas paredes do quarto. O colchão deitado no chão, os lençóis apartados, as almofadas esquecidas, e a grande janela a transpirar pelo calor provocado pelos corpos derretidos. Os dois esquecem o mundo, esquecem tudo, cavalgam no nome que sabem e repetem de cor. - Amor, meu Amor!
Como para Espanca, é pouco, é muito pouco mas é bastante. Uma paixão doida que dia a dia cresceu com vigor, como de um sonho vago e sem fervor.
Susana e Afonso alimentam-se desta paixão inquietante, ardente, louca, imprevista. O mundo desaparece para bem longe quando se amam, fica muito distante, esconde-se atrás das antigas galáxias, no interior dos seus precipícios mais profundos. As mãos dos amantes voltam a apertar-se, até ficarem vermelhas, e os dois regressam a esse país de ilusão que só existe quando Afonso povoa Susana e Susana o recebe dentro de si.
- Amor, meu Amor, não penses nisso, não agora, por favor! – pede-lhe a amada, a soluçar.
Os corpos separados, voltam a abraçar-se e a unir-se.
O fogo perdura, os frémitos abalam as paredes desse quarto. O chão passa a ser o colchão por onde lençóis e almofadas esquecidas deslizam sem regras. A grande janela transpira como nunca, como se fosse feita da mesma pele adocicada dos amantes, como se fosse viva e também desejasse esquecer o mundo, esquecer tudo, e cavalgar sem rumo montada na frase que os dois repetem sem parar. - Amor, meu Amor!

Sofia, mais do que desconfiada, sabia que o Afonso a traía. O marido trazia os cheiros de outra mulher, os olhos dele brilhavam de outra maneira. Os seus lábios beijaram outros lábios que não os seus, acariciaram outros seios, outras coxas e outro sexo. Não tem a mais pequena dúvida que Afonso foi recebido pelo corpo de outra mulher.
Até o Tiago, tão novo, percebeu no pai sinais dessa mudança.

- Preferi escrever. Não sei nem quero responder às tuas estranhas perguntas. – avisa Rui de caneta na mão.
A paisagem muda, lentamente. O nevoeiro dissipa-se e as imagens das ruas e do rio regressam devagar.
- Acho bem. Nada como um tórrido romance para apimentar as coisas. Isso mesmo! Agora pensa num crime, uma coisa misteriosa, sangrenta. Não pares, parar é que não. Aproveita a embalagem. Vês como fiz bem em trazer-te comigo para estes lugares remotos. Estavas a necessitar de um abanão, só isso! Qual falta de imaginação e de criatividade, qual carapuça! A história já existe. Tu sabes disso melhor do que ninguém. Só tens de a reencontrar, com a mesma mestria com que descobriste as obras anteriores.
O companheiro indesejado prepara outras viagens. Aproveita o novo dom, a sua recém-adquirida capacidade de se deslocar sem se mover, para proporcionar novas experiências ao escritor. As vozes insistem para ele proceder dessa maneira.
Rui sente, pela primeira vez, que não conseguirá terminar a nova obra nos prazos previstos sem os seus indispensáveis serviços.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ESTRANHOS



Estranhos, passeamos uns pelos outros, por entre outros, mas sempre como estranhos.
- Joel, olha só para a variedade de raças, de credos, de nacionalidades que se cruzam num só dia no aeroporto. Milhares de penteados, de rostos, de estilos de roupa, de línguas, de destinos, todos tão diferentes. Houve uma altura em que pensei trabalhar como hospedeira na TAP. Gostava de poder viajar por esse mundo fora, conhecer o maior número de países e de culturas. Ainda hoje me lembro de como foi fascinante o dia em que atravessei a fronteira de Vilar Formoso, com os teus avós e a tua mãe, pela primeira vez. Espanha! Vê lá tu bem! Tão longe… mas eu fiquei impressionada. Devia ter cinco ou seis anos. E depois, quando chegámos a França, percebi que o nosso planeta era gigantesco. Foi como se tivesse alcançado uma galáxia distante povoada por extraterrestres de chapéus bizarros, e que falavam a mais estranha das línguas. O teu avô nunca tinha andado de avião, e tem um medo de morte só de pensar neles. Mas, pelos vistos, lá o conseguiu superar.
O sobrinho mal ouviu as palavras da tia. Procurava pelo avô no meio dos passageiros recém-chegados. Tinham aterrado três voos quase ao mesmo tempo, e quinze minutos depois chegou um avião do Brasil e outro proveniente de Harare.
Sul-americanos, africanos e europeus vão saindo e recebem abraços, carinhos e saudações de quem veio recebê-los.
- O teu avô, até hoje, nada me disse acerca dos motivos desta viagem.
Joel sente nervosismo nas palavras da tia Filipa, e resolve responder com uma mentira:
- Não? A mim, entregou-me um envelope com a prenda, e disse que este ano tinha de ir até Paris ter com o tio António. Foi só isso, e depois, abraçou-me com mais força do que é habitual.
Seria desleal se Joel quebrasse o voto de silêncio que o avô lhe pediu. O tio António meteu-se em grandes sarilhos lá por França, e pediu encarecidamente a ajuda do avô Augusto. Não quis que a irmã soubesse de nada. Complicações de dinheiros, dívidas por saldar. O negócio tem andado a correr mal, e agora está a passar uma fase de grandes dificuldades. Ao neto, descansou-o, disse-lhe que para o curso nada lhe faltaria. Augusto sempre foi uma pessoa preocupada com os seus, por isso, anda sempre com um ar soturno, e é senhor de poucas palavras. Joel gostava de poder ter mais tempo para conversar com o avô, para lhe “sacar” histórias de outros tempos.
- Olha, Joel! É o avô que vem ali. Ainda não nos viu! PAI! PAI!!!
Filipa passou o Natal muito tensa, e não apenas por causa da súbita viagem do pai. Os últimos meses da sua vida têm sido um turbilhão de emoções. O telemóvel vibra, teimoso, dentro da mala, enquanto o pai desce a pequena rampa com o carrinho metálico da bagagem. Um forte abraço ao neto, primeiro, um beijo no rosto de Filipa, a seguir.
As sete chamadas não atendidas de Afonso iluminam a azul o visor do telefone de Filipa.
- O António vai regressar, definitivamente, no início do Verão! – declara Augusto, antes que alguém começasse a conversar! 

A chave descansava no sofá, e o carregador estava na mesa do hall de entrada do apartamento. Susana só tem de recordar onde estacionou o carro se quiser chegar a tempo da primeira aula da manhã. Os alunos já sabem que a “stora” Susana tem dificuldades em chegar a horas, e que muitas vezes corre até à sala para abrir a porta ao segundo toque da campainha.
- Hoje, o “stor” Afonso vai faltar! A funcionária já veio avisar que vamos ter aula de substituição. – grita o Francisco para os colegas que esperavam novidades junto da sala de aula.
- Vamos jogar para o campo antes que chegue outro professor. – gritam os rapazes da turma, deixando as meninas entregues à lotaria do feriado.

- Querias viver ou morrer? Se ficasses paralisado e não pudesses mexer um único músculo do teu corpo, o que desejarias? Que te mantivessem vivo ligado a uma máquina, ou que te deixassem seguir viagem? Os médicos retiravam-te o coágulo da cabeça a tempo, mas não sabiam como irias responder à operação. Talvez o resultado não fosse tão mau como no início se pensava. Davam-te dez por cento de probabilidades de tudo voltar a ser como antes do acidente. A tua família está derrotada na sala de espera a aguardar notícias. Os órgãos vitais do corpo são escravos do cérebro. É ele o ditador, e não sabes o que te acontecerá. Difícil, não é? Se isso te acontecesse, se fosses apanhado pelo destino numa situação tão terrível como esta, preferias não ter sobrevivido? E se nunca mais pudesses mergulhar nas águas frescas do oceano, nunca mais pudesses amar, cheirar, sentir, respirar, ver as coisas com clareza e nitidez? E se ficasses paralisado para sempre, preso num corpo sem movimento, e nada mais houvesse a fazer, a não ser escutar as palavras dos especialistas? A tua viagem só agora ia começar. As opções a acabar, a respiração torna-se muito difícil. O que farias? Querias viver ou morrer? Querias que te conseguissem compreender até te fazerem a pergunta final? Ficarias ligado à máquina mais de seis meses numa unidade de cuidados intensivos. O aparelho respiraria por ti, mas as memórias ainda seriam as tuas. Seriam elas a darem-te as informações. Não sentirias dores, só conseguirias mexer os olhos. Recordarias a sensação de frio provocada pela neve acabada de cair e relembrarias as coisas simples que te fizeram feliz. Então? O que farias se o destino te pregasse assim uma partida?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O CÉU E O INFERNO


 
- Vem visitar a cidade. Sai, aventura-te por estas ruas, avança pelo meio destes milhões, que vivem um dia de cada vez, num autêntico formigueiro humano. A noção de espaço é outra, os sonhos são pequenos, a segurança é uma ilusão, a vida é uma ilusão, e sobreviver a cada dia, a maior das conquistas. Céu e inferno andam por aqui de mãos dadas, e somos duramente confrontados com a verdadeira natureza de quem somos, e do que somos. Enches um pote de água suja, impura, andas pelo meio da favela suja, pútrida, durante muito tempo, aguardas na fila o necessário até que chegue a tua vez, pior ainda se fores mulher e estiveres menstruada, ou se a vontade te chegar durante a noite, em que necessitas de acordar os outros que contigo partilham o parco espaço onde tentas descansar. Pedes auxílio para não ires sozinho, ou sozinha, se fores criança ou uma jovem rapariga. Não há iluminação, a não ser a luz das velas ou fósforos que consigas encontrar, e essa simples ida pode ser perigosa, quem sabe até fatal. Não sabes quem encontrarás pelo caminho, as ruelas e becos da favela são escuros, sombrios, e o lixo amontoado um obstáculo labiríntico que procuras evitar. Escuso de relatar o que vem em seguida, quando alcanças a pública latrina, e resolves de vez o teu assunto. Abri a tua janela e dei comigo nesta cidade. Decidi deixar o caminho aberto para ti. O que achas? Ainda te sentes desinspirado? Nesta cidade as doenças propagam-se com facilidade, diarreias, cólera, hepatite e malária, a febre de dengue. As crianças vão às latrinas de pés descalços, não lavam as mãos, não têm hábitos de higiene, as moscas cantam à nossa volta e os mosquitos proliferam. Os teus pressupostos podem estar errados. Tens de ter a noção da obra como um todo, sentires todas as suas partes, e tens de saber como explicar as diferentes cambiantes. Senti que se caminhasses por esta cidade, a tua inspiração poderia regressar mais depressa.
Por todos os lados escuto os sons e os ecos que me chegam do exterior. Os ruídos da cidade são vencidos pelas minhas músicas. Mais de oitenta por cento dos meninos da rua são rapazes, e entre os que dormem e erram perdidos, mais de metade tem menos de dez anos. Ninguém os vê, são enxotados, são insetos indesejados que seguem perdidos, sombras no meio do reboliço da cidade com maior densidade do planeta.
- Imagino as razões que te fizeram trazer-me até aqui. – desabafa o escritor.
-Não, não imaginas. As vozes disseram-me que tenho de escolher um caminho, antes de regressar. Antes dessa escolha, terei de viajar por locais que não conheci, e que dificilmente poderiam ser visitados ao longo de dez vidas. Este é o primeiro de muitos. Consigo cheirar, mesmo depois de morto! Consigo, mas preferia não ter de o fazer. Escutas o som do piano que parece chorar? Foste tu quem escolheste a música do cd? Tens bom gosto. Assim torna-se menos penoso olhar os rostos destes jovens anónimos que passam por nós. Podias ser esse rapaz, aquele outro que ali vem, este que te estende a mão, o que dorme junto àquele muro, ou o que corre atrás dos camiões abarrotados de passageiros. Podias ser aquele que sobe ao camião, o que cai desamparado e não se queixa, o que segue agarrado junto à porta, o que não se move, deitado no chão.
O trânsito mal circula, o ar é abafado e poluído. Uma chuva imensa, intensa, quente, começa a cair. Ninguém se preocupa com isso. Os habitantes seguem os seus caminhos sem se inquietarem com o início da monção. As ruas já estavam caóticas antes da chuvada.

O cão dos vizinhos continua a ladrar, mesmo depois da empregada dos doutores o levar a passear. É um tormento! O animal não gosta de estar fechado no apartamento. A dona Fátima deve estar maluquinha por ter de trabalhar todo o dia naquele inferno! Fechou o cão na despensa, na varanda, na casa de banho, pensou em atirar o animal pela janela, em amordaçá-lo com fita isoladora. Já telefonou à senhora, que a descompôs. O bicho anda louco pela casa, salta de sofá em sofá, por cima da mesa da sala de estar, arranha a porta do escritório, arranha a porta da cozinha, a porta da sala, a porta de entrada do apartamento. O caniche branco está possuído pelo demónio, é o próprio demónio em forma de cão. O candeeiro do Ikea voou do aparador assim que o animal chegou da rua. Choveu, Fátima não ia preparada, e acabou por quase largar o Einstein. Teve pena de ter conseguido agarrar a trela a tempo.
 

sábado, 26 de janeiro de 2013

NASCEMOS PARA MORRER



As personagens do escritor regressam para o interior do invólucro, onde as repensa, onde conversam umas com as outras, mesmo não se conhecendo. Rui volta a refugiar-se num mundo imaginário que só ele conhece. Os universos existem em jarros transparentes, com passagens efémeras entre si, de portas invisíveis, e janelas cerradas. O cosmos deixou de fazer sentido. Zé Paulo tinha razão. Os universos são locais violentos, com toda a informação refletida nos seus horizontes mais longínquos, buracos negros semelhantes ao início de todos eles, universos que habitam nos seus interiores, universos comunicantes, onde realidade e sonho coexistem separados por membranas invisíveis às máquinas sofisticadas que o homem construiu.
Correr e escrever, sem dizer adeus, só até já. É sempre primavera quando encontramos as mensagens escondidas em cada uma das histórias. Rui, tenta encontrar a nova obra através do denso nevoeiro deste difícil recomeçar, sem escutar as vozes amigas, suas companheiras de sempre, e sem os pesadelos inovadores que sempre o ajudaram nas suas criações.
- Nascemos para morrer! Nascemos para morrer, e aprendemos, relembrando o que se perdeu nas memórias distantes de quem já fomos, como todos os universos existentes. As calças já não vão à máquina quase há dois meses. Trago pedaços do ano passado agarrados à ganga. Gosto de trazer fragmentos de coisas passadas colados à roupa, bocados de dias, de semanas, com viagens e viajantes que nunca conheci. Nesta outra cidade, as pessoas andam mais libertas de razão. O companheiro desapareceu, entendeu deixar-me sozinho com esta nova paisagem. Ainda não sei quem é, ou quem foi, melhor dizendo. Nem ele sabe porque me veio visitar. Não sabe nada, afinal, é isto que nos acontece quando morremos. A mesma dúvida surge quando compreendemos que estamos vivos a primeira vez. Então isto é que é estar vivo? Então isto é que é estar morto? Mas, o que é isto afinal? Estamos ali, estávamos ali, e depois, tudo passou num repente, e já lá não estamos, já estamos aqui, ou num outro lugar, num outro tempo, e não somos quem éramos, mas ainda somos, antes de deixarmos de existir. Esta neblina morna levou-me grande parte das palavras escritas. Não que elas fossem muito importantes, ainda nada de sério nelas tinha acontecido. Vou sair. Regressei a casa para ter esta surpresa. Uma prenda! Que cidade é esta, que rio será aquele, tão largo, tão imponente? Não me respondes? Trouxeste-me até aqui com o firme propósito de me sacudires a inspiração. Claro que sim, foi isso mesmo. Mostras-me os teus novos truques de alma nómada para me impressionar.

Quando jovem, Isilda passava as segundas-feiras de manhã na igreja do bairro, a ajudar na limpeza da sacristia. O padre Anacleto agradecia. Às terças-feiras servia refeições aos idosos nos lares, e ajudava, sempre que podia, nas entregas e visitas ao domicílio que eram organizadas pela paróquia. O padre Anacleto agradecia. Às quartas-feiras promovia reuniões com voluntários, na diocese, para organizar atividades de apoio às crianças e jovens desfavorecidos. O padre Anacleto agradecia. Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias, dava aconselhamento a jovens acerca de planeamento familiar com mais duas caridosas voluntárias. O padre Anacleto agradecia. Às sextas-feiras, ajudava a recolher e a separar roupa usada que era oferecida pelos fiéis devotos, com outras duas caridosas voluntárias, na igreja do bairro. O padre Anacleto agradecia. Ao sábado, visitava a casa do prior, homem lindo, que nunca devia ter seguido a vocação, e que com ela se satisfazia, enquanto Isilda gemia, gritava e chorava de prazer. O padre Anacleto agradecia. Depois lavava-a, penteava, acariciava-a por longos minutos, como se assim ficasse esquecido o pecado vergonhoso que o obrigou a ser um escravo da impureza. - Que o senhor me faça louco, cego e delirante, que me castigue, mas que não me leve a tua pele macia e olhos doces, o teu hálito frutado, a tua candura. – repetia, vezes sem fim, enquanto a secava. Ao domingo, Isilda descansava, e o padre Anacleto agradecia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

PALAVRAS SEM SENTIDO



Tudo o que Rui pretende é recomeçar a escrever. Tem de o fazer, não vale a pena continuar a adiar o inadiável, pois o problema não se resolve sozinho.
- Deixa-te levar pelo instinto, mas escreve. Dizem-me as vozes que tens de escrever. Qualquer coisa que seja, mas escreve. Não podes continuar a vaguear, à espera que a inspiração te seja entregue numa qualquer bandeja. Enquanto os dedos estiverem parados, a obra está parada, mas, como vês, a obra está tudo menos parada.
- És um filósofo! Depois de morto, teorias não te faltam. Desculpa, não era bem isto que queria dizer. Nem te conheço. A verdade, é que nem eu próprio me conheço. Penso muitas vezes que escrevo para tentar entender quem sou, para saber quantos outros eus em mim habitam.
Rui viaja por palavras que não esperava encontrar, na esperança que elas lhe façam regressar a inspiração. Está partido em pedaços, enredado em personagens desconexas, como as histórias que iniciou. Escuta vozes, e sente a presença de um dos seus donos que agora o acompanha. Nada é real, nada disto pode ser real.
- Pensas que a magia se perdeu nas noites e nos dias seguidos que te correm mal. Queres ter de volta dias azuis, sem canções tristes, só inspiração. Escreve! Pega na caneta e escreve! Assim que os dias maus terminarem, e o inverno acabar, os teus pecados regressarão e a tua escrita ficará tão colorida com um raio de sol. Junta os fragmentos dessas tuas ideias para construíres a obra, junta os restos, todos os pedaços, todas as sombras de todas as personagens que povoam o teu espírito. Junta-lhes sangue e suor, mistura as narrativas que ainda mal nasceram, atira-te para o branco da folha de corpo e alma, atira-te, e escreve, escreve, escreve, escreve, escreve… até te doerem os dedos, as mãos, os pulsos.
- O passeio só trouxe de volta a chuva, e pouco mais. As palavras não fazem sentido. Não sei quem és, porque te mataste, porque me escolheste para conversar. Prometo regressar às palavras se me disseres quem és, ou quem eras…
O vento escuta-se do lado de lá das vidraças da sala. A janela, fechada, abre-se sem intervenção do escritor, e um pequeno vendaval levanta todas as folhas da mesa, roubando algumas que voam para o céu da cidade, que se transforma. Uma outra cidade, de um novo continente, surge do lado de lá das paredes da casa. Um calor húmido invade o ambiente onde antes era Lisboa. Outro rio nasceu e por ali viaja.
- Hoje sinto que sou um abrigo, ontem era a parede, o muro que ninguém conseguiu quebrar. Só me apetecia morrer, sempre, a todos os instantes de cada dia, até que perdi a noção dos porquês dessa vontade. Ver para crer, pois as vozes que escuto assim me confiaram a tarefa. Por isso escreve, escreve, não adies! Vou aproveitar a transformação da cidade e passear por esta nova que apareceu no seu lugar.
- Foste tu que abriste a janela e fizeste com que tudo mudasse? – questiona o escritor.
- Claro. Estavas a necessitar de uma mudança de ares. Agora sai, ou delicia-te com a nova vista do apartamento. Eu, se fosse a ti, escrevia. Deixa que este calor húmido tome conta de ti. Escuta os sons que aqui habitam, observa a luz intensa, inebriante, alaranjada, quente.
O tempo parou, deixou de passar por aqui. Alguns habitantes estão junto ao rio, a receber o novo dia. Dizem que as noites, por aqui, não são feitas para dormir. Entretêm-se a contemplar bailados de fumo nas margens do rio, por onde navegam velhas barcaças ao ritmo dos braços castanhos dos remadores. O nevoeiro envolve-os, e parte da cidade desaparece debaixo do manto espesso que a cobre.
- O que esperas alcançar com este teu truque de ilusionismo?
Rui está inquieto, nervoso.
O mundo e as suas regras, escolheram este dia para se modificarem.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O UNIVERSO É UM LOCAL VIOLENTO


Os congressos são uma chatice, e dão um trabalho dos diabos. É uma canseira, a que se soma este surto que não deixa ninguém parado. Rogério não tem tempo para nada. Esquece-se das refeições, almoça dois cigarros para abanar a rotina, depois de um café, e quase não vê os miúdos. Madalena, quando chega janeiro, aflora de mansinho a data que ele sempre esquece. Este ano são quinze anos de casados. Para onde foram, como desapareceram tão rapidamente? Uma merda, é o que é! Sempre sonhou ser astronauta, ou então engenheiro naval. A família dizia que o menino tinha de ser médico, e só ficou satisfeita quando o filho mais novo do doutor Sepúlveda acabou por fazer-lhe a vontade. Antes dele, torraram da mesma forma a paciência as dois irmãos. Alexandre, o mais velho, fugiu para a Venezuela no início dos anos noventa, e a coisa ainda hoje não está bem esclarecida entre ele e os pais, com quem mantém contactos furtuitos duas ou três vezes por ano. O pior foi o Zé Paulo, que acabou por se revelar o mais fraco e permissivo dos três, até que a corda explodiu de maneira cruel.
Rogério recorda vezes demais os episódios tristes que quase levaram o irmão à loucura. - O universo é um local violento. – dizia o Zé Paulo. – Somos seres conscientes mas não entendemos o esquema que nos rege, e a sua complexidade. Teorias, fórmulas, milhares de milhões de estrelas observáveis, e é nas árvores e no céu que, segundo ele, se encontram encriptados os ritmos matemáticos com infinita precisão. O caos e a irregularidade deram-nos a existência e moldaram-nos conforme somos. As leis que tudo comandam não são assim tão engenhosas. – insistia. - Esta afinação delicada tem como papel encobrir o que, na realidade, importa. Uma obra vastíssima, um número incompreensível de universos paralelos, impossíveis de decifrar ou compreender, encontram-se algures colados a esta outra obra, ligados apenas pelo cálculo matemático da absurda e improvável hipótese estatística. Foi fácil gerar uma multitude de universos, se um só foi assim criado, e a teoria final acabará por nos levar até ao mais profundo dos níveis de conhecimento. – repetia vezes sem conta, para, no fim, me questionar. - Quantas são as dimensões invisíveis de quem somos, do que somos, e de tudo aquilo que nos rodeia?
José Paulo dizia-se capaz de conseguir detetar as mais pequenas variações das dimensões de todos os universos. O pior é que, para o fazer, para decifrar as suas variações, para sentir todas essas vibrações, despia-se e caminhava nu pela “superfície” do nosso universo, fisicamente inacessível aos restantes. Aproximava-se e deixava-se “arrastar” para essas outras dimensões, como tantas vezes lhes chamava. Numa dessas viagens, caminhou nu até ao quarto dos pais, apertou o pescoço de Sepúlveda e quase o matou.