quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

AS TECLAS INVISÍVEIS DO PIANO MÁGICO



As letras estão a ficar cada vez mais difíceis de entender.
As mãos tremem-lhe quando toca nos vidros da janela da sala, Rui levantou-se, sacudiu o pó, sacudiu-se com a intenção de sentir-se vivo. Dá conta da sua surdez.
O momento em que os rebentamentos aconteceram surge-lhe em flashes desfocados. Voou, desmaiado, e uma mão previdente depositou-o, ileso, naquela posição. Aquela ainda não era a sua hora.
Testemunhou a madrugada na cidade, deitado ao lado dos cadáveres sem se conseguir mexer. Demorou a entender o que se tinha passado. Demorou a noite inteira a regressar, não queria regressar, depois já queria, depois não queria, e fechou os olhos para descansar.
- Testemunhei a noite desta cidade vitimada pela guerra e pela ruína humana. Não consigo focar, está tudo turvo, e eu sinto-me o último dos habitantes, sou o único sobrevivente do massacre. Porque não tive a mesma sorte dos outros?
As letras estão a ficar cada vez mais difíceis de entender…
O companheiro improvável respira de alívio.
- BOM! Muito bom! Decidiste bem. Nem sabes como estava preocupado contigo. Os lugares para onde tenho de te levar, são-me impostos. O sol nasceu, um novo dia nasceu, brilhante, na nova cidade que vês da janela. Regressámos a Lisboa, mas não sei se é a mesma de onde saímos.
- Porra! Não ouço nada! NADINHA! Tremo como varas verdes e estou surdo. Vou tomar um banho antes de recomeçar a escrever.

Helen gosta de se recrear na banheira a olhar para as unhas pintadas dos dedos dos pés. Encolhe-se, mergulhada na água quente e perfumada, por um longo minuto. Emerge, bem devagar. A testa, primeiro, os olhos e o nariz, depois. Simula, com os pés, os movimentos ao piano. Aqueles dedos alvos de unhas rosa choque, bailam fora de água, percorrem as teclas invisíveis do mágico piano onde toca a obra inacabada. A irlandesa escuta a melodia, acompanhada por um coro masculino e a orquestra. Toca o instrumento com os pés, com as mãos, nua, quente, húmida, parcialmente submersa, perfumada, etérea, eterna. Nada a faz sentir-se mais viva e feliz, nada. A música acompanha-a sempre, a todas as horas de todos os dias.
Helen volta a mergulhar, volta a encontrar-se cara a cara com o silêncio. De olhos fechados, debaixo de água, toca com os pés no fundo da banheira, onde se encontram as teclas invisíveis do piano mágico. Toca duzentas novas notas da sua obra, duzentas notas que a fazem sair e correr para a folha de pauta musical, antes que o mundo a resolva fazer desaparecer.
O quarto e a casa de banho ganharam pegadas húmidas.
Helen não dá conta da janela aberta, não dá conta dos sorrisos de felicidade de quem olha para si do prédio em frente, enquanto passa a música para o papel, despida, como veio ao mundo.



- A música da pianista acompanha-a, como as minhas vozes. Helen é uma bela personagem para a obra.
- Tens razão, Rui. A tua pianista é mesmo uma “boa” personagem para o romance. Já me ouves, ou ainda estás surdo como uma porta? Que belo susto me pregaste. Quanto às “minhas vozes”, elas avisaram-me que, caso não te consiga auxiliar, estarei tramado para sempre. Não sei o que me pode acontecer, afinal de contas, morto, já eu estou! Não é verdade? Morto, já eu estou! – fala o invisível a olhar a nova Lisboa. - Nem sabes a visão que estás a perder. Anda até à sala, anda cá! Olha que miúda espetacular mora ali no prédio em frente. Espetacular! Uma vista assim não é para todos. És um felizardo. Agora já entendi onde te foste inspirar para construir a personagem da tua história.
Rui ainda não consegue escutar as palavras do companheiro invisível.
O duche sabe-lhe bem, o duche e este silêncio forçado.

- Tenho de lhe telefonar, tenho mesmo de ligar-lhe. Seria tão bom se o carro fosse mesmo pelos ares como na série.
Um estrondo violentíssimo abana o prédio, e os alarmes de dezenas de viaturas disparam em uníssono. Carla olha pelas vidraças da varanda e descobre que o local onde o Audi vermelho estava estacionado deixou de existir. Foi lá que nasceram estas densas nuvens de fumo negro.
Uma vítima, um homem viu a vida ser-lhe roubada, e um susto de morte para todos os que se encontravam ali perto. Uma sorte, um autêntico milagre não haver mais mortos, nem feridos. Diz, quem viu, que o senhor estava dentro do automóvel quando ele explodiu. Só pode ter sido uma bomba a causa deste acidente. Um atentado em plena Lisboa. O estrondo foi de tal magnitude, que logo uma multidão cercou o local do rebentamento.
Carla está incrédula a observar a nuvem escura, e sente-se fazer parte do elenco da sua série.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A MENINA MAIS LEVE DO MUNDO


As bombas continuam a cair.
Sem aviso prévio, alguém começa a disparar no escuro.
Rui está deitado, sem escutar, só cheira, e observa os clarões provocados pelas rajadas dos atiradores. Onde estará escondido o “companheiro”? O escritor não o vê, porque está surdo. O invisível está aos berros desde que ele voou projetado pelo impacto das bombas.
São como fantasmas, sombras de outro mundo. Rui revê o mesmo filme por mais quatro vezes. As personagens repetem as deixas, os movimentos, os sentimentos, sentem os mesmos dissabores, mas a cada repetição entende melhor as ideias do realizador. As cenas foram realizadas com mestria, e foram montadas com sabedoria para que a história acabasse por sobressair. O filme é o mesmo, mas a cada nova visualização, sequência brilhante após sequência brilhante, Rui capta os detalhes que antes lhe tinham escapado. Como em todas as histórias, o final não é o fim, apenas encerra o capítulo, ou indicia o novo que alguém, depois, realizará.
Vidas vulgares escondem histórias extraordinárias, porque todas as vidas são excecionais. Tudo se move em câmara lenta. As balas atravessam o ar, cruzam-se em diferentes direções, embatem com violência nas carcaças destroçadas dos edifícios, penetram tapumes de contraplacado e gesso, furam tetos falsos, carros destruídos e os cadáveres que estão ao lado do escritor.
- SAI! Anda, levanta-te! Sai daí, sai depressa daí! Isto não é um sonho, não é um filme… LEVANTA-TE ANTES QUE TE MATEM! Não me consegues ver, nunca me conseguirás ver, e eu nunca salvei ninguém enquanto fui vivo, nunca. SAI DAÍ, MERDA! MEXE-TE! Resiste à tentação de te deixares ficar deitado à espera da morte. RESISTE! Não faças como eu… FODA-SE! RESISTE!!!!!!
Rui continua surdo a ver os filmes. Está deliciado com o voo das balas em câmara lenta. Traçam perfeitas linhas luminosas na escuridão da cidade arrasada.

- Foi o teu irmão que assim decidiu! No próximo verão, vai regressar de vez a Portugal.
Augusto recebe um abraço e um beijo da filha, um abraço e dois beijos do neto, um olhar espantado e de estranheza de Filipa, um olhar de contentamento de Joel.
Calados, dirigem-se para o parque de estacionamento do aeroporto. Agora não é o momento apropriado para explicações ou esclarecimentos.
- O voo correu bem, avô? Não teve medo de andar de avião? – avança Joel para desanuviar o peso dos silêncios.
- O homem não foi feito para voar! É só isso que eu te digo, se assim fosse, teríamos nascido com asas. Mas teve de ser… teve mesmo de ser! – responde Augusto numa posse ministerial. – Paris é uma cidade confusa, grande e confusa. Digam lá o que disserem, há coisas que um velho tem dificuldade em compreender. Ele há coisas que um velho, como eu, tem mesmo muita dificuldade em entender…
Susana e Joel olham para o pai e avô, cheios de vontade de lhe arrancarem satisfações. Travam, a tempo, as perguntas, como se tivessem ensaiado tudo com a antecedência devida.
Augusto para, acende um cigarro para desconforto de Filipa.
- Não digas nada, rapariga, não comeces com as tuas coisas. Aqui já se pode fumar, não é verdade? Vão arrumando as coisas no carro, que eu já venho.
O ano novo continua tão igual ao que já passou.

Dançar, só lhe apetecia dançar. Sempre que Madalena recorda os dias passados na Beira, a maravilhosa piscina do hotel, e os belos passeios, relembra, acima de tudo, a brincadeira preferida do pai. Ao som da orquestra do hotel, os senhores e as senhoras entretinham-se em danças de salão após as refeições. O pai pegava-lhe ao colo, com uma facilidade incrível, tão incrível que ela sentia-se a menina mais leve do mundo. Depois, ao som de Glenn Miller, deslizava com ela pela pista, rodopiando uma eternidade.
Este ano, ela e o marido comemoram bodas de cristal, mas o Rogério tem andado alterado. Madalena não sabe se é do trabalho, se são os miúdos, se é do congresso, se foi do estressante fim-de-ano, passado com o Zé Paulo, se é da rotina, se é só do tempo que tem trazido toda a gente meio deprimida, ou se é por causa de si.
- Doutora, venha depressa. A doente da cama nove voltou a ter convulsões, e desta vez são mais fortes que as anteriores. – exclama a enfermeira Nádia.
Madalena só queria voltar a sentir-se, por um breve instante, tão leve e tão feliz como naqueles dias em que era a menina mais leve do mundo.
- E isso foi antes ou depois de lhe terem dado os medicamentos?
Madalena está arrependida do cigarro que acaba de fumar. Tinha decidido deixar de o fazer, tem de deixar de o fazer.
A enfermeira Nádia dá-lhe conta do estado da doente da cama nove, mas a médica está distraída. Talvez não seja boa ideia dar a novidade ao Rogério no dia do aniversário. A notícia da sua gravidez pode provocar uma reação contrária à desejada, e Madalena resolve adiar para um outro dia a importante informação.

O “invisível” já não consegue gritar.
Rui permanece deitado.
Os disparos terminaram.
A rua ficou tranquila.
As linhas luminosas deixaram de riscar o espaço cinzento-escuro da madrugada.
- Volta, por favor, volta para dentro de casa. Se continuares aí fora eu não te poderei salvar.
O mundo volta a girar à mesma velocidade.
Os cadáveres são como fantasmas, são sombras de um outro mundo.
- Tenho de me recompor. Tenho de sair daqui e incluir esta história na minha obra. Há infernos espalhados por toda a parte, e sombras e margaridas que começam a murchar. Não vale a pena avançar pelas ruas desta cidade. O medo e a morte são a única companhia dos seus habitantes.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

FLORES DE GUERRA



O mundo parou de rodar. Rui sente que tudo se imobilizou quando saiu porta fora rumo à cidade destruída.
- Que coragem! Sem conheceres o lugar, no meio desta escuridão, avanças determinado pelos escombros. Podias, ao menos, esperar que amanhecesse. Tem cuidado! O perigo é bem real, mesmo que penses de outra maneira. Queres acabar morto neste teu passeio? A tua obra mal começou, e eis que te atiras, desvairado, para as ruas desertas desta terra devastada. É isso que pretendes, que alguém te ataque, te fira de morte? Não sejas insensato, regressa ao teu local de trabalho, caso contrário, de que te serviu teres dado início ao romance? Tanta preocupação, tanta pesquisa e trabalho de preparação, e tudo isso para quê?
O mundo parou de rodar. O tempo não avança. Neste instante só existe uma conversa absurda ente o escritor e o companheiro invisível.
Rui hesita, mas tem de ver, com os seus olhos, até que ponto pode a barbaridade acontecer. Mantém-se inabalável nos seus propósitos, e avança às apalpadelas pelas escadas do prédio destruído.

- Pai, as pessoas com olhos verdes são traiçoeiras? – pergunta Jorge antes do pai se despedir junto ao portão da escola.
- Que disparate? Os teus colegas andam novamente a chatear-te? Não ligues a essas palermices, filho, não lhes ligues… e não te esqueças de dizer à professora que chegaste atrasado por causa do trânsito. Eu depois justifico a falta se for preciso.
Vasco lança um adeus ao filho, quase a fugir. O rapaz vê o carro do pai desaparecer na curva da estrada, sem vontade de enfrentar os colegas. Os gémeos Sepúlveda são mesmo parvos, e agora até a Catarina e o Martim já o provocam. Não tem pressa de ir para as aulas. Mas hoje, o que mais o preocupa, é a imagem daquele homem a passear na ponte. O Jorge ainda não arranjou explicação para o desaparecimento misterioso, e tem certeza de que o senhor não era um funcionário da manutenção. Calçava umas sapatilhas, vestia calças de ganga muito sujas, um blusão cinzento e um boné de pala verde e vermelho da seleção nacional. Tinha barba longa e uns cabelos compridos que desciam até metade da mochila preta que trazia às costas. Via-se logo que não era um trabalhador da ponte. O que raio estaria ele por lá a fazer? Jorge não consegue mesmo tirar o homem da cabeça, e decide o improvável.
- Vou até à ponte! Vou descobrir onde raio é que o homem se escondeu.
O passeio durará uma boa meia-hora até que ele chegue ao cruzamento que dá acesso ao tabuleiro da ponte. Depois, ainda são mais vinte a vinte e cinco minutos, sempre a andar, mas tem de ser. Jorge tem de resolver o mistério de uma vez por todas, e também não tem vontade nenhuma de enfrentar os colegas, que só o chateiam.

- Decidiste avançar, não foi? Estás com medo, quase apavorado, não sabes o que te impele para a aventura, mas decidiste avançar.
O “invisível” está preocupado com a expedição do escritor.
- As consequências da tua excursão noturna podem ser trágicas. Já pensaste nisso? – insiste a voz de quem não se vê.
Rui não recua um milímetro na resolução. O pior de tudo é este cheiro a morte que se alastrou desde que abriu a porta do apartamento. A escuridão, as pedras e o entulho são um mal menor.
O escritor avança às apalpadelas quando dois caças fazem de novo o mundo girar. As bombas explodem a poucos metros do local onde ele se encontra.
O mundo para de rodar.
Tudo se imobiliza.
Uma sirene aguda grita-lhe aos ouvidos, até ficar surdo.
Rui cai junto aos degraus da entrada do prédio, ao lado de três cadáveres.
- Era isto que querias? Foi para isto que decidiste avançar? Merda! Uma grande merda é o que é! E agora?
O raide foi rápido e mortal. Antes de desmaiar, sentiu a cabeça rebentar, o corpo a desligar-se, e as margaridas a florir no meio dos escombros.

Cada flor representa uma vida ceifada pela guerra.
- Não era isto que eu te queria mostrar, mas era isto que tu querias descobrir. Agora, despacha-te! Não deixes a obra abandonada. Antes das flores murcharem, tens de regressar à tua escrita. Recupera depressa, pois alguém pode matar-te de verdade.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O FIRMAMENTO É O MAIOR DOS CEMITÉRIOS


- Então, porque não escreves? Tem sido difícil encontrar inspiração? A tua obra não avança, mas tu sabes que tens de escrever. Se não o fizeres, a editora deixará de ter confiança em ti. O que farás se isso acontecer? Andas desmotivado, distraído, e a obra está cada vez mais atrasada. Esta nova cidade é a prova de que o mundo jamais deixará de ser um lugar violento. A verdadeira natureza humana revela-se nestes conflitos. Nada lhe resiste. Pior do que a destruição visível, é a que permanecerá marcada para sempre nas memórias da humanidade.
Rui desconhece como lhe chegou a paisagem destruída. A esta situação não será alheia a intervenção do companheiro invisível. Ele ainda não disse quem é, ou quem foi, e menos informou acerca das razões que o levaram a precipitar-se da ponte abaixo. A obra não avança. Que novidade! Cada palavra que escreve, uma dor, cada linha que compõe, um tormento. Porque lhe foge a inspiração?
Na nova cidade não existem flores, as ruas estão destruídas, a morte alastra como uma doença. Os caças bailam nos céus como relâmpagos, e durante a noite o efeito que causam é indescritível.
- Escreve! Deixa de pensar nisso e escreve. Esquece os bombardeiros, a destruição, as vítimas que provocam, o cheiro nauseabundo que se propaga, a escuridão feita de fumo e de cinzas, o frio intenso causado pelo medo, as fachadas arruinadas… esquece esta merda toda, e escreve! O que é a vida de um escritor senão a obra que cria? Quanto menos pensar, mais depressa consegue fazer crescer um romance. Faz o que te digo, escreve!
O “invisível” tem razão. Cada segundo que passa é uma sílaba de uma nova palavra que o escritor não regista. As personagens da história já a viveram, ou estão a vivê-la neste instante. Rui devia estar a fazer aquilo que lhe compete, ou seja, escrever acerca das vidas desses outros.

O dia ficou mais alegre depois da chuvada. Frio, mas azul. A notícia do nascimento da sobrinha alegrou Helen. A irmã acaba de ser mãe, de novo, e mais depressa do que se imaginava. Deirdre tinha feito tantos planos, e agora já é mãe pela terceira vez. Desta feita, chegou a menina que tanto desejara.
A pianista ruiva deixa-se embalar pelas sinfonias da manhã, fecha os olhos, e vê a irmã a dar à luz, como num filme. A música de fundo foi composta por si, de propósito para o evento. Deirdre grita, e a música da irmã embala-lhe as súplicas, enquadra a azáfama dos médicos e das enfermeiras, ilustra a chegada da menina ao mundo. O ruído compassado do comboio embrulhado como presente na serenata da pianista. A música de dois pianos envolve a sobrinha quando o cordão umbilical é cortado, e sobe de intensidade quando ela solta o primeiro choro com fulgor. A melodia de Helen transporta-a até junto da irmã. A menina é lindíssima, e ela não podia ter recebido melhor notícia esta manhã.
A terra continua a movimentar-se, com ela as nuvens, os mares e os oceanos. Junto aos pilares da ponte, as luzes das viaturas da polícia e das ambulâncias estão refletidas nas vidraças húmidas das carruagens. Helen não se apercebe, continua de olhos fechados a assistir ao filme do nascimento da sobrinha. O mundo avança em câmara lenta.

- Estamos os dois aqui sentados, e toda a luz está a ser sugada com violência para o interior do buraco negro. O pai precisava de ser desligado, Alexandre! O nosso pai é um verdadeiro buraco negro, bem mais poderoso do que podes imaginar. A luz, toda a luz, desaparece na sua presença. Enquanto estive na banheira, entendi que o universo só voltaria a ganhar equilíbrio se o conseguisse fazer. As equações giravam ao meu redor, uma atrás das outras, e eram cada vez mais complexas. Não tive tempo para as transcrever, mas faziam todo o sentido. Foi então que senti um odor a perfume antigo a espalhar-se pelo quarto-de-banho. Olhei-me ao espelho e não me reconheci. Não imaginas como eu estava velho, cansado e tão gasto. Despi-me. Senti o corpo com a mesma idade do rosto que o espelho me mostrava. Aquele era eu! O nosso pai sugou o tempo e transformou-me, mano! O buraco negro chupa tudo o que orbita em seu redor, e envelheceu-nos. Mas ele mantém-se igual ao que sempre foi. Negro, impávido, poderoso, inflexível, e engole tudo com sofreguidão. Não te parece que eu tinha de fazer alguma coisa? O que me dizes, mano? Fiz bem? As fórmulas eram seguras, indicavam as soluções com clareza, diziam que o tempo acabaria por nos fazer desaparecer no interior do vórtice poderoso.
A noite estava estrelada.
Alexandre não sabia o que fazer, nem o que dizer ao irmão. Nenhuma das estrelas pode ajudar o Zé Paulo, até porque a maioria delas já não existe. O firmamento é o maior dos cemitérios, e até de dia a luz do sol é mentirosa.
- Anda, vamos para dentro. Explica-me, com mais calma, o raciocínio que te levou a equacionar esta solução para o problema. Mas primeiro vais ter de te vestir.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CARRO ARMADILHADO




- Estivemos muito tempo à espera. O centro de saúde estava cheio de gente. Ele tem uma otite e está com a garganta muito inflamada. Já passámos pela farmácia para aviar as receitas. Foi outra meia hora perdida. Anda toda a gente doente. São quase duas da tarde e só agora vou fazer o almoço. E tu? A que horas podemos contar contigo para jantar?
Rui não pode saber, nunca sabe. As instalações que ainda tem para fazer podem demorar, e vão ocupá-lo, na pior das hipóteses, até às dez da noite. Depois tem a viagem de regresso. Atira uma hora, numa previsão, mas sem certezas.
- Não sei, Rita. Depois de Palmela ainda vou passar por Setúbal e Sesimbra. Talvez nove, nove e meia. Tu sabes como são estas coisas, mulher! O que importa é que o miúdo melhore. Amanhã quero ver se não tenho de voltar para estas bandas. Foi por isso que hoje sai mais cedo do que o habitual. Vou tentar chegar por volta das nove e meia, está bem.
O Rodrigo está cheio de fome. A caixa das bolachas ficou vazia e a mãe nunca mais se despacha. Apetece-lhe esparguete à bolonhesa. Na cantina da escola a comida nem sempre presta, mas hoje é a mãe que lhe vai cozinhar um dos seus pratos favoritos.
- Mãe, onde é que a avó guardou as bolachas?
- Nem penses que vais agora comer bolachas! Espera que eu faça o almoço, e tu tens de tomar o antibiótico logo a seguir. Estás a sentir-te melhor, é o Bruffen que está a fazer efeito.
Dona Carminda escuta uma porta a ser fechada com violência, e muitos gritos. O homem enorme com quem a menina Carla namora está aos berros, grita bem alto, com modos de um autêntico selvagem. A senhora passou a ter receio de se cruzar com o sujeito. O dia em que o viu pela primeira vez, ainda não lhe saiu da cabeça. Carminda ia a entrar no elevador, e ele saiu disparado levando-a à frente com a pressa. Uma besta de quase dois metros, com um corpanzil de meter respeito, uma cabeça grande, toda rapada, e um olhar taciturno. Anda sempre com uns óculos estranhos. Pela manhã, é o cão que não dá descanso, à tarde e à noite é o reboliço constante entre o brutamontes e a menina Carla.
- Olha, mãe! Que grande estrondo! O barulho veio outra vez lá de cima. - diz Rui de telecomando na mão.
- Não ligues. O homem é maluco, e perigoso. Lembras-te do que aconteceu ao carro quando fizemos queixa à polícia? Pode ser que um dia destes lhe aconteça alguma.
Porque terá a Carla arranjado um namorado assim? Se as coisas não melhorarem, alguém terá de voltar a fazer queixa às autoridades. O homem mete medo, e a Carla já não é a mesma. Meteu-se numa alhada de todo o tamanho. Não é difícil perceber o que se está a passar. Coitada da rapariga.
- Mais valia não abrires a boca! Pensas que estou para te aturar? Ai de ti que não estejas em casa quando eu voltar!
O homem carrega freneticamente no botão do elevador, bate na porta, dá-lhe pontapés, brada e repete asneiredos como se o mundo fosse parar se não o fizer.
- Merda de prédio, só um elevador para tantos pisos! Fechem a porta seus cabrões de merda! Fechem a porta senão parto-vos os cornos!
A vizinhança é obrigada a escutar os desaforos do animal. Hoje, o ataque de fúria foi bem mais audível.
Carla está refugiada na varanda do apartamento. Dali avista os outros prédios, outros casulos iguais ao seu, a avenida e o carro vistoso do Armando. Lembra-se da sua série favorita, recorda o episódio em que uma viatura explodiu quando o assassino rodou a chave na ignição. Talvez alguém se tenha lembrado de armadilhar o Audi vermelho durante a noite, quem sabe, talvez alguém se tenha lembrado de o fazer...
 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O ILUMINADO REFÚGIO DAS PALAVRAS



Cada ano, cada mês, cada dia, enche-nos de novidades, povoa-nos o espírito com dezenas de inícios, com centenas de enredos, com milhares de histórias por contar.
Vejo um escritor a trabalhar com afinco na sua obra. Regressa às páginas que já escreveu para confirmar ideias, para verificar se tudo bate certo. Escreve num caderno de capa negra com folhas amareladas. Algumas estão soltas no interior. Serão esboços, compassos da partitura que constrói. É mais uma obra à espera de quem a encontre, com personagens que vagueiam, que existem ou existiram, e que o escritor desembrulha em frases no papel. O escritor regressa, de novo, a páginas anteriores. Terá mais certezas do que eu, pois é bem mais rápido com a caneta. Relê palavras passadas para compor as do presente. Está curvado sobre o caderno aberto, mergulhado na folha que escrevinha. Completa mais uma linha e inicia a seguinte. Não terá setenta anos. Tem barba grisalha aparada, bem tratada, de alguns dias, e o cabelo curto, igualmente cinzento.
O escritor segue com a sua tarefa, a bom ritmo. Folheia as páginas, relê frases antigas, faz crescer a obra com as novas que lhe acrescenta. Veste roupa negra, o mostrador do relógio de pulso é negro, o casaco que tem pelas costas é negro, como as calças, as meias, os sapatos, a camisola. Os dedos estão despidos, as mãos trazem as marcas do tempo, e tratam as folhas do caderno com primor. O escritor segue a sua dança, continua a procurar o novo no antigo.
O iluminado refúgio das palavras onde nos abrigamos, torna-nos anónimos, quase invisíveis. Habituamo-nos a observar, com a atenção devida, os detalhes dos dias. Os sorrisos de quem chega, a alegria de quem aguarda, os olhos atentos e concentrados de quem estuda, o ar ausente de quem conversa ao telefone, as rugas de expressão de quem lê apontamentos, o ar preocupado de quem pensa.
O escritor está concentradíssimo aos comandos do manuscrito. Quem será? Que história estará a escrever?
- Quando puderes, dá-me uma apitadela, nem que seja às quatro da manhã. – escuta Rui atrás de si.
- Ouviste? Se quiseres, quando puderes, dá-me uma apitadela. – insiste o companheiro invisível.
- Tu queres que eu te ligue? E como é que um mortal contacta alguém que não se encontra no mundo dos vivos. – questiona Rui a falar para o ar.
- Repara! Olha como o escritor lê para si, baixinho, as palavras que escreveu. Deve ser poeta. As linhas do caderno estão preenchidas por palavras que formam poemas. O escritor é alto, tão alto como tu. Levantou-se, e entrou na livraria. E se estivesse apenas a escrever um livro de atas?
- Apetece-me estrangular-te! Se te visse, apertava-te o pescoço. Estás parvo ou quê? O homem é escritor, não tenho a mais pequena dúvida. Não vejo como é que esta conversa me pode ajudar a construir a obra, perdido como estou no meio de tantos inícios delirantes.

A noite estava fria, as vozes gritavam alto, tão alto, que o universo inteiro estava prestes a implodir.
José Paulo levantou-se, a meio da noite, com a maior das confusões instalada na cabeça. Desceu até ao corredor do rés-do-chão, avançou para a casa de banho. Fechou-se à chave lá dentro, e entrou na banheira onde se encolheu. Esperou que a barulheira desaparecesse. No dia anterior o pai, mais uma vez, discutiu com o Alexandre, com o Rogério, discutiu consigo e até com a mãe, que descompôs usando argumentos absurdos. Nada do que ele ou os irmãos faziam estava bem feito. A vontade suprema do senhor doutor Ezequiel Sepúlveda prevalecia, no final, acima de todas as outras.
Zé Paulo sentiu um formigueiro quente a nascer-lhe no peito, que alastrou pelo corpo todo. Eis que as galáxias mais distantes se preparavam para lhe proporcionar explicações acerca do funcionamento do universo. Enquanto isso não acontecia, despiu-se, largou o pijama e os chinelos no chão, abriu a porta, e voltou ao piso superior onde todos dormiam. As mãos eram a única parte do corpo que não ardia. O cabelo vermelho, como a lava do Vesúvio adormecido, iluminou o quarto dos pais mal abriu a porta. A mãe moveu-se na cama, o pai manteve-se quieto. O pescoço de Ezequiel Sepúlveda foi apertado por dez tentáculos poderosos. Deolinda, impávida, viu a sua tez mudar para um branco imaculado. O marido estava de olhos muito abertos, avermelhados com a dor e a surpresa. Já Alexandre corria em socorro do pai e do irmão, quando um grito estridente se soltou da pequena senhora Deolinda, que esbracejava como se estivesse possuída por um demónio qualquer. Rogério saiu do seu quarto e viu os irmãos abraçados. Zé Paulo chorava, desnudado. Explicava ao irmão Alexandre que o universo não resistiria às alterações profundas causadas pelo nascimento de um novo buraco negro. Os dois irmãos desceram as escadas num estado muitíssimo alterado.
O pai surgiu, desvairado, com uma arma na mão, e Deolinda gritou, com voz rouca, as palavras que nunca mais esqueceu:
- Se te atreveres a seguir atrás dos nossos filhos de pistola em punho, juro que quem te mata sou eu!

- Helen, it´s me, mum! Guess what? Your sister just had a baby! It’s a girl!
O sorriso da jovem irlandesa iluminou a carruagem. A chuva cai, mas o coração da pianista está mais feliz do que nunca.
- Really? How marvelous! I’m so, so happy. Thanks mum, for this wonderful news.

O escritor saiu, levantou-se da mesa onde escrevia, entrou na livraria e desapareceu.
- O que achas que está a acontecer? Ando baralhado. Tu e as minhas vozes não me dão qualquer ajuda
A voz do companheiro improvável não responde. A janela da sala mostra imagens de outra cidade. Os prédios estão destruídos, a guerra escuta-se do outro lado da vidraça. Escombros, um amontoado de pedras, de ferros, de detritos. Rebentamentos e explosões são a música de fundo deste cenário desolador. O raide aéreo deixou sinais evidentes. A chacina está espalhada por toda a parte. Há muitas vítimas e poucos ou nenhuns meios para as socorrer.
- Quantas mães estão, neste preciso momento, a chorar as mortes dos filhos? – pergunta o companheiro improvável. – Quantas?


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

AMOR, MEU AMOR!


Os corpos que antes se abraçaram e se uniram, estão de novo separados.
Um fogo imenso de labaredas vastíssimas, e os clamores de prazer ainda a ecoar pelas paredes do quarto. O colchão deitado no chão, os lençóis apartados, as almofadas esquecidas, e a grande janela a transpirar pelo calor provocado pelos corpos derretidos. Os dois esquecem o mundo, esquecem tudo, cavalgam no nome que sabem e repetem de cor. - Amor, meu Amor!
Como para Espanca, é pouco, é muito pouco mas é bastante. Uma paixão doida que dia a dia cresceu com vigor, como de um sonho vago e sem fervor.
Susana e Afonso alimentam-se desta paixão inquietante, ardente, louca, imprevista. O mundo desaparece para bem longe quando se amam, fica muito distante, esconde-se atrás das antigas galáxias, no interior dos seus precipícios mais profundos. As mãos dos amantes voltam a apertar-se, até ficarem vermelhas, e os dois regressam a esse país de ilusão que só existe quando Afonso povoa Susana e Susana o recebe dentro de si.
- Amor, meu Amor, não penses nisso, não agora, por favor! – pede-lhe a amada, a soluçar.
Os corpos separados, voltam a abraçar-se e a unir-se.
O fogo perdura, os frémitos abalam as paredes desse quarto. O chão passa a ser o colchão por onde lençóis e almofadas esquecidas deslizam sem regras. A grande janela transpira como nunca, como se fosse feita da mesma pele adocicada dos amantes, como se fosse viva e também desejasse esquecer o mundo, esquecer tudo, e cavalgar sem rumo montada na frase que os dois repetem sem parar. - Amor, meu Amor!

Sofia, mais do que desconfiada, sabia que o Afonso a traía. O marido trazia os cheiros de outra mulher, os olhos dele brilhavam de outra maneira. Os seus lábios beijaram outros lábios que não os seus, acariciaram outros seios, outras coxas e outro sexo. Não tem a mais pequena dúvida que Afonso foi recebido pelo corpo de outra mulher.
Até o Tiago, tão novo, percebeu no pai sinais dessa mudança.

- Preferi escrever. Não sei nem quero responder às tuas estranhas perguntas. – avisa Rui de caneta na mão.
A paisagem muda, lentamente. O nevoeiro dissipa-se e as imagens das ruas e do rio regressam devagar.
- Acho bem. Nada como um tórrido romance para apimentar as coisas. Isso mesmo! Agora pensa num crime, uma coisa misteriosa, sangrenta. Não pares, parar é que não. Aproveita a embalagem. Vês como fiz bem em trazer-te comigo para estes lugares remotos. Estavas a necessitar de um abanão, só isso! Qual falta de imaginação e de criatividade, qual carapuça! A história já existe. Tu sabes disso melhor do que ninguém. Só tens de a reencontrar, com a mesma mestria com que descobriste as obras anteriores.
O companheiro indesejado prepara outras viagens. Aproveita o novo dom, a sua recém-adquirida capacidade de se deslocar sem se mover, para proporcionar novas experiências ao escritor. As vozes insistem para ele proceder dessa maneira.
Rui sente, pela primeira vez, que não conseguirá terminar a nova obra nos prazos previstos sem os seus indispensáveis serviços.