sábado, 20 de abril de 2013

ELE HÁ CADA MALUCO NESTE MUNDO...



São muitos os mirones que estão junto ao local da explosão. A polícia não se cansa de dar ordens para que as pessoas circulem e não fiquem por ali paradas. Não serve de nada.
Dona Josefa sentiu o forte estrondo. O pequeno café do mercadinho ainda estava bem composto de freguesia quando a coisa se deu.
- Ai credo, valha-me Nossa Senhora! Tu ouviste isto, Manel?
Quatro bicas ficaram por pagar, mais duas torradas, duas sandes de fiambre e um chá de limão. As pessoas assustaram-se de tal maneira que nem se preocuparam em pagar.
- Aquilo não deve ter sido brincadeira nenhuma. Vai lá abaixo ver o que é que aconteceu, Manel, vai lá. Coisa boa é que não deve ter sido.
Um cliente permanece sentado a uma das mesas, sem mostrar qualquer preocupação com o sucedido. Josefa pensa que o homem deve ser algum maluquinho, ou então é surdo. Uma coisa destas põe qualquer um em sobressalto.
Mais de metade dos clientes saíram a correr, e os outros estão do lado de fora do estabelecimento, junto à entrada, a olhar para a espessa nuvem de fumo que se formou a três quarteirões de distância. Uns dizem que talvez tenha sido uma botija de gás, ou alguma fuga numa instalação que pode ter causado o acidente.
- Porra! Olha só para aquilo, foi um estouro do caraças! – exclama o invisível. – Até consigo saborear o cheiro intenso desse fumo, as labaredas do carro destruído, os outros automóveis a irem pelos ares e o pessoal todo a admirar o espetáculo.
Olha lá, nunca te disseram que é falta de educação olhar para aquilo que as outras pessoas estão a fazer? Eu não te consigo ver, mas não é simpático da tua parte aproveitares a tua situação para espiares o meu trabalho. Além do mais, isso só me atrasa. Interrompeste a minha rotina e os meus raciocínios. Que grande merda! Agora já nem sei o que estava a escrever. Belo ajudante que tu me saíste. Não sabias ter ficado calado?
- Não consegui evitar, foi mais forte do que eu. – responde o amigo improvável.
Vou ter de deixar de beber tanto café. Fico nervoso com estas coisas comezinhas, e depois arrependo-me logo das palavras. Se o invisível não conseguiu deixar de manifestar a sua opinião, é porque a história não lhe foi indiferente.
- Olha, sabes que mais, sou mesmo um parvo? Desculpa, já me arrependi do que te disse. Às vezes falo depressa demais. Estava mesmo a precisar de um intervalo.
Não faço a mais pequena ideia dos locais por onde este amigo invisível se movimenta. Até agora ainda não me disse quem é, como se chama e o que fazia na vida antes de se ter atirado ao Tejo.
- Para que queres saber quem sou e o que fazia? Isso não tem importância. Se eu aqui estou, foi porque tu me chamaste. Eu tão pouco sei o que se passa comigo. Quando o meu corpo mergulhou nas águas do rio, eu já não estava vivo. Devo ter morrido de ataque cardíaco durante a queda. Não me lembro de ter voado, só tenho uma vaga lembrança do momento em que me coloquei de costas voltadas para o rio e me deixei cair. Depois chamaram-me, numa língua desconhecida. Eu vi médicos do I.N.E.M. a colocarem o meu corpo numa maca, junto ao cais onde estava montado um aparato de todo o tamanho. Enfiaram-me dentro da ambulância que arrancou com as sirenes desligadas. Estava por lá muita gente, e alguns jornalistas também. Tive mais olhos a olharem para mim depois de morto do que em todo o meu tempo de vida. Voltaram a chamar-me, num dialeto invulgar mas que me foi fácil de entender. Deram-me esta incumbência e não me disseram mais nada. Vim parar aqui porque, segundo me explicaram, precisavas muito da minha ajuda.
- Eu?! Eu é que precisava da tua ajuda? As tuas palavras não fazem sentido. Já te perguntei tantas coisas e tu foges sempre com as respostas. Isso em nada me tem ajudado. Vou confessar-te um pequeno segredo. De vez em quando tenho sonhos tão reais que me ficam colados por dias na memória. Sabes o que faço com eles? Aproveito-os para retirar ideias para as minhas histórias. Estás a ver, é ou não é uma prova de amizade da minha parte? É um pequeno presente que te ofereço pela minha indelicadeza de há pouco.
Silêncio.
Não me responde.
Estes são os momentos em que julgo ter endoidecido de vez.
- Procuro tanto as palavras para os meus enredos que acabo por inventar ajudantes fantasma.
- Inventas mas é o caraças, ó escritor! Deixa lá de dizer disparates e aproxima-te da janela. Olha que dia maravilhoso! Hoje estás proibido de escrever coisas acerca de bombas. Deixa para outra altura essa parte da narrativa em que o Armando é morto, e a Carla fica num profundo estado de nervos. Vem cá, aproveita a vista que tens da tua sala. Respira o ar desta magnífica manhã de sol. Dificilmente encontrarás uma melhor forma de inspiração.
Resolvo aceitar a sugestão. Assim que chego à janela, toca o telefone. Não atendo, não quero que nada me distraía. Devia ser o Lopes, de novo.
O Tejo está cheio de paquetes. Lisboa está vestida com as cores da primavera. Esta não é a mesma cidade do prédio das bailarinas. O que se terá passado comigo naqueles mais de trinta dias que por lá fiquei? Lembro-me de ter subido a escadaria do edifício que cheirava à mais doce das pastelarias. A música inconfundível da irlandesa embalava-me e dizia-me para continuar a subir. Encontrei o último piso. Abri uma porta de vidro que dava acesso a um pátio octogonal com quatro portas de apartamentos. Era dali que emanavam os aromas perfumados que inundavam a construção. Por detrás de uma delas nasciam os acordes maravilhosos do piano de Helen.
Desta minha janela vejo a ponte e imagino o prédio da pianista a brotar do chão, no outro lado da rua, junto ao arvoredo. Cresce, transparente, na vertical, muito depressa. Ergue-se como uma imensa torre de cristal. No último andar ilumina-se a janela que eu descrevi. Vejo a pianista nua, sentada ao piano, a compor as suas melodias encantadoras. Ao seu lado alguém se movimenta. Uma mão masculina acaricia-lhe as costas, os ombros e o rosto. Um homem levanta-se e chega perto dela. Abraça-a por detrás, acaricia-lhe os seios, beija-lhe os ombros e o pescoço delicado. A música não para.
Recordo-me de ter subido ao último andar.
Escutei as melodias que saíam da porta com a letra B.
Não me lembro de mais nada.

- Dona Josefa, dona Josefa! Nem vai acreditar! – grita o Manel quase sem fôlego. – Foi uma bomba que explodiu, e um carro voou pelos ares. Aquilo ali ao fundo da avenida até mete medo, dona Josefa. É só carros a arder e casas com vidros partidos. Disse, quem viu, que estava um senhor dentro do carro que voou. Esse já cá não mora! Aquilo está mesmo uma coisa medonha, só lhe digo.
Um homem continua sentado, impávido e sereno, com se nada se tivesse passado. Escuta as palavras do rapaz, e pede a conta à dona Josefa.
- Queria pagar a bica e um pastel de nata, se faz favor.
A mulher estava tão perturbada com a novidade que nem escutou o pedido. O estranho cliente deixou cinco euros em cima do balcão, junto à chávena do café. Ao sair do mercadinho, pediu licença e passou entre a patroa e o empregado, despedindo-se com palavras enigmáticas:
- Então até logo, tenham um bom-dia. O universo sabe bem aquilo que faz, e hoje premeditou esta espantosa estratégia de aniquilamento.

Helen parou de tocar.
Da janela continuo a ver a ponte e o prédio transparente da pianista.
Ela permite os afetos e as carícias do desconhecido. Levanta-se, vira-se, abraça-o e beija-o apaixonadamente.
O prédio reinicia o movimento.
Apaga-se a janela do quarto onde a cena acontece.
O prédio desaparece para dentro do chão que o viu crescer.
Volto a ver a ponte, o rio, e o extenso arvoredo que habita do outro lado da rua.

- Ouviu aquilo, dona Josefa? O que é que o homem disse? Ele há cada maluco! Chiça!
- Tens razão, Manel. Ele há cada doidinho neste mundo!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

UMA DATA MEMORÁVEL



O cão está irrequieto e não para de correr de um lado para o outro. O estrondo provocado pela explosão fez o prédio estremecer. O Einstein ficou ainda mais nervoso, como se isso fosse possível.
Dona Fátima está desorientada. Uma coisa assim só tinha visto nos telejornais quando dão notícias daqueles países onde os atentados são o pão nosso de cada dia.
O telefona toca. É a doutora Madalena a perguntar se tudo está bem. Acabou de ver as imagens na televisão da sala de atendimento do hospital, e quis saber como estavam as coisas lá por casa. A Fátima responde, explica que não houve danos nem vidros partidos. Os noticiários dão conta dos prédios vizinhos com as vidraças estilhaçadas e há também muitas viaturas danificadas.
- Não se preocupe, minha senhora, está tudo bem. A doutora nem imagina o susto que apanhei. O prédio abanou todo e o cãozinho anda por aqui a correr às voltas. Tínhamos acabado de vir para cima quando se deu a explosão, e já estou farta de me benzer. Olhe que foi coisa de minutos, se eu me tivesse atrasado mais um bocado…- desabafa a empregada, sem conseguir terminar a frase. Os soluços e as lágrimas tomaram conta da mulher quando esta se apercebe, mais uma vez, que podia ter sido vitimada pela explosão.
- Fátima, então! Acalme-se, vá lá, afinal não aconteceu nada. Faça um chazinho e esqueça as limpezas por hoje. Arrume só aquilo que conseguir e deixe o resto para depois. Eu já lhe volto a ligar para dizer como vai ser mais logo com os miúdos. O mais certo é ser eu ou o doutor Rogério a ir buscá-los ao colégio. Fique tranquila Se o Einstein continuar assim irrequieto, leve-o outra vez à rua. Dê um passeio com ele, pode ser que ajude.
- Credo, minha senhora! É que nem pensar! Não saio à rua de jeito nenhum. Disseram nas notícias que estão mais bombas por rebentar, e que este pode ter sido só o primeiro de muitos rebentamentos. A doutora não se lembra do que se passou em Londres e em Madrid? Vou ficar por aqui até que os senhores regressem.

Jorge decidiu transformar este dia numa data memorável. O rosto do homem da ponte persegue-o como um fantasma, mas não o assusta. Ele quer resolver o mistério. O rapazito agarrou-se a este pretexto para conseguir transformar um sonho em realidade. Sempre desejou andar a pé naquela estrutura gigante que embeleza a paisagem da cidade e está radiante por ter preferido continuar a sua caminhada até lá acima.

Puta do demónio, foi o nome que o povo da aldeia escolheu para batizar Alzira. A mulher nasceu para atormentar a cabeça dos homens. Podia lá ser! Maldita! Nem os padres escapavam à sua má influência. A mãe também tinha ganho uma fama parecida. Lá na “terra” quase todos lhes conheciam as pernas e os atos. - Está feito, feito está! – cantava Etelvina. Depois corria como uma desalmada para marcar mais uma cruz na parede xistosa da loja do porco. Os sinais indicavam as vezes que os rapazes e os homens se aventuravam com ela pelos campos e vales suspirando de prazer. Eram muitos os pais que lhe lançavam os filhos na esperança de ela deles fazer uns homens. Mais valia ser assim do que levá-los à vila para os entregar às mulheres da vida que por lá passavam, de quando em vez. Era uma vadia, uma puta do demónio. Tal mãe, tal filha. A Isilda herdou-lhe muitos dotes. O raio da rapariga tinha mesmo a quem sair.
As duas desapareceram da aldeia, um dia, sem deixar rasto. Ficaram as saudades dos homens.
Augusto não entende porque diabo se foi recordar desta história durante a viagem de Paris até Lisboa, logo ele que tem tantas coisas com que se preocupar. E agora esta tremenda barafunda que parece ter tomado conta da cidade. Um atentado à bomba, polícias, ambulâncias e viaturas dos bombeiros tornam a circulação na segunda circular um inferno ainda maior do que o habitual.
- Estás a ver, Filipa! Está tudo parado! Tinha sido melhor teres seguido pela ponte Vasco da Gama como eu te disse.
A Etelvina era uma mulher lindíssima, e isso sempre colocou em perigo os relacionamentos na aldeia, para além das invejas das mulheres. Era completamente louca, e tão excessiva quanto formosa. Uma alma daquelas num lugar tão pequeno e remoto tinha tudo para acabar em desgraça. E como era fogosa, o raio da mulher.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A FORÇA QUE TUDO ATRAI



O livro voou pela janela, desgovernado, como um pássaro ferido.
Zé Paulo aproxima-se do parapeito da janela para melhor observar as folhas e a capa a esbracejarem. O objeto luta contra o efeito perverso da lei da gravidade. Não voa, antes cai como um bumerangue alvoroçado. As asas brancas de letras negras tentam resistir, mas esta simples lei da física está a derrotá-las com facilidade.
A força gravítica do mais forte vence as palavras que procuravam fornecer pistas para o complexo funcionamento do universo. Zé Paulo ri-se ao vê-las cair desengonçadas.
Da Vinci analisou vários princípios e projetou alguns aparelhos para levar de vencida esta força que tudo atrai. Observou e estudou, como ninguém, o voo dos pássaros, a arquitetura das asas de morcegos, os maneirismos com que se erguiam nos ares. Quantos foram os livros atirados por ele pela janela? Quantos bumerangues descontrolados terão por ele sido lançados ao ar? O génio cientista fazia tantas perguntas que até se esquecia de dormir. Foi rápido a entender que teria de ser ele próprio a encontrar as soluções.
Zé Paulo gostaria de assistir, por uma vez, à vitória deste improvisado pássaro de papel. O universo rege-se por princípios e leis que o homem ainda mal conhece, mas alguns conseguem preencher dezenas de volumes com teses e teorias opulentas.
- Este vai ser o livro que vencerá a gravidade. Perderá peso e massa, ganhará a consciência de uma borboleta monarca, e no último instante voará majestoso para bem longe daqui. – declama à janela com um brilhozinho nos olhos.
O livro esbraceja ainda mais nos últimos metros da viagem e atinge, com violência, o tejadilho de um Alfa Romeu branco que estava estacionado em cima do passeio. O alarme dispara com intenção de acordar toda a vizinhança.
- Que merda! Ainda não foi desta! A poderosa força gravítica do automóvel impôs-se a mais uma nobre tentativa. Só espero que o dono da viatura aprecie mais o livro do que eu. – desabafa enquanto vai observando as consequências do seu ato.
Na rua juntam-se alguns dos moradores do prédio, a presumível dona do carro e mais dois ou três anónimos que por ali passavam. Pela maneira como se movem, não suspeitam que o alarme tenha sido disparado por causa de um insólito meteorito quadrangular formado por páginas com teoremas excêntricos. O livro embateu no teto da viatura e ressaltou para o meio da estrada onde foi atropelado por três vezes. Está muito mal tratado. O universo premeditou esta humilhante estratégia de aniquilamento.
Zé Paulo liga a televisão com a janela aberta. Pode ser que o manual tenha aprendido a lição e regresse a casa menos altivo. A esta hora os canais não passam nada que tenha interesse. Filmes repetidos, inenarráveis novelas que se estendem pela madrugada dentro, os mesmos comentadores de sempre a tecerem pela milésima vez iguais considerações, e a notícia do dia. Imagens captadas por telemóvel mostram um homem a atirar-se do tabuleiro da ponte 25 de abril ao Tejo. Zé Paulo fica incomodado pela forma como o homem se lançou, mais do que pelo dramatismo do ato. De costas voltadas para o rio e para o mundo, assim se deixou ir, até que as águas o engoliram.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

ESCUTA AS VOZES COM ATENÇÃO



- Perdi-me na tua cidade. Passou-se um mês e a obra ficou parada. Lembro-me apenas de alguns fragmentos do que escrevi. Tinhas-me dito um mês, mas foram mais de trinta os dias que aqui passámos. Tenho de recuperar o tempo perdido. O que mais me incomoda é ter ficado com pouquíssimas recordações. O que viemos nós aqui fazer? As tuas bailarinas do prazer desapareceram. Guardo algumas memórias dos seus cheiros, mas são escassas para tantos dias.
- O universo alinhou-se durante este período. Era necessário que assim acontecesse. Tinhas de experimentar esta sensação de vazio. O tempo passou por ti, os ritmos de todas as coisas mantiveram-se imperturbáveis. Estiveste hibernado e só agora recuperaste a consciência. Andaram por aqui alguns mendigos. Os seguranças desta cidade convidaram-nos a sair para que se restabelecesse o fluxo temporal tal como tu o concebes. Os idosos estão de regresso às mesas do café e às conversas banais. Alguns estão sozinhos, sentados de pernas cruzadas, a observar as vidas dos outros. Outros resguardam-se nas leituras. Um pai adormece a sua filha. Escutas as mesmas músicas que estás cansado de ouvir, sons que te são familiares mas sem os quais não conseguirás criar. Um velho senta-se para tomar o café da manhã, duas mulheres e um homem conversam. Estás a acordar? És bem capaz de permanecer neste estado por mais um par de dias, até que a normalidade se restabeleça. A tua falta de inspiração devia-se ao tremendo cansaço que foste acumulando ao longo dos últimos anos. Deixaste que as tuas histórias tomassem conta de ti ao ponto de já não conseguires raciocinar. Escrevias de forma automática, obedecias às instruções do teu agente que satisfazia os interesses da editora e o teu gosto deixou de imperar. Há muito tempo que escrevias acerca de assuntos que já não eram teus. Foi por isso que me chamaste. Querias a minha ajuda, mesmo que afirmes o contrário.
Rui ainda mal acordou. As palavras do invisível conseguiram irritá-lo. Segundo esta estranha teoria, todo o tempo que esteve sem trabalhar serviu para que o universo se alinhasse e para que a sua inspiração se pudesse regenerar. Balelas, um completo disparate! Um mês, ou melhor, trinta e quatro dias passados a dormir, a hibernar na misteriosa cidade do prazer. Ora aí está uma façanha que não deseja ver acrescentada ao seu currículo. A obra esteve parada durante este longo período. O prazo para a entrega do texto encurtou-se e tornou a tarefa quase impossível.
- Queres-me fazer acreditar que daqui para a frente vou ganhar uma súbita inspiração que me fará escrever como nunca e a uma velocidade estonteante? – pergunta o escritor.
- Sim! – responde o amigo improvável de forma lacónica.
- Sim? Mas sim, como? Regresso ao meu apartamento, sento-me à mesa da sala, coloco as folhas vazias à minha frente e, sem mais nem menos, a obra surgirá. É assim que tudo irá acontecer?
- Sim! Tal e qual. – renova o invisível. – Tu talvez não te recordes, mas as baladas da compositora irlandesa protegeram a tua hibernação. Sofrerás o efeito dessas melodias quando escreveres.
Rui prefere não colocar mais questões. O tempo urge. Se a inspiração estiver de regresso, como lhe foi comunicado, o melhor mesmo é aproveitar.
Helen é uma personagem da sua história. Helen vive nesta cópia de Lisboa, num prédio onde bailarinas nuas dançam nas montras. A mulher que vive no prédio em frente ao do escritor não se chama Helen. A mulher que mora no prédio em frente ao seu, e que aparece nua à janela, não tem nome. Rui usou-a para criar a pianista da sua história e Helen foi o nome com que a batizou. Ele sabe que tem de regressar. A mão recomeçará a sua arte, as palavras irão surgir pois é urgente que a obra esteja concluída antes que o Lopes o mate.
- Não tenhas pressa. Tudo aquilo que tens para contar será contado. Mais importante do que os prazos, do que os temas, as modas ou as determinações da editora, mais importante do que tudo isso está o teu querer. Não cedas! Escreve acerca do que escutas. Se assim o fizeres, acabarás as tuas obras dentro dos prazos.
O escritor recebeu o conselho com bastante ceticismo.
- Estou para ver se as coisas vão mesmo acontecer como me estás a dizer. Benditos trinta e quatro dias, se assim for.
A cidade esfuma-se enquanto o escritor sobe os últimos degraus que dão acesso ao piso onde mora. Esta Lisboa que o viu descansar, não existe mais.
O invisível sorri.
Rui sabe bem o quanto precisa de uma boa história. Vai ter de se concentrar para escutar melhor as vozes que a contam.
A cadeira encontra-se no mesmo sítio de sempre, junto à janela que dá para a cidade. Rui mentiu ao afirmar que se tinha inspirado na mulher que mora no prédio em frente ao seu e que, por vezes, surgia nua à janela. Mentiu porque não existe nenhum prédio em frente ao seu. Da sua janela apenas vê as ruas e as avenidas de Lisboa.

- O sol está radioso. Tínhamos saudades de um dia assim. Recomeça a escrever, Rui. De agora em diante vais ter a nossa companhia todos os dias. É quase meio-dia. Estiveste um mês a descansar, mas ainda bem que assim aconteceu. Daqui para a frente a tua obra irá crescer. Só terás de anotar aquilo que nós, as “vozes“, temos para contar.

Rui está sentado e olha para trás, por instinto. A jovem irlandesa estava ali a fitá-lo. Foi só por um breve instante, mas viu-a com clareza. A pianista vestia umas calças de cabedal negras, uma blusa branca e um casaco azul-escuro de ganga. Trazia uma bolsa e umas botas pretas, e os longos cabelos alaranjados dançavam ao vento. De headphones colocados, como era seu hábito, observou-o e desapareceu como num sonho. Ressurgiu, pouco depois, com a sobrinha ao colo, a sorrir.
Na estante brilha um pequeno CD com músicas de Alexandre Desplat. Rui coloca-o na aparelhagem antes de recomeçar a escrever, e a melodia toma conta do salão.


quarta-feira, 13 de março de 2013

UMA PERFEITA FORMA DE SALVAÇÃO





Rui perdeu a paixão, ao fim de tantos anos, se é que alguma vez a sentiu.
Queria ser salvo por quem o compreendesse, mas a vida não funciona como um filme. A sua obra é agora um guião desgovernado.
No café onde o escritor encontrava as palavras, elas esgotaram-se. Acabaram! Cansaram-se de o auxiliar.
Não lhe resta mais nada.
Uma jovem toma um expresso em pé, ao balcão. O que será que ela pensa? Tem olhos negros intensos. Pega numa pequena mala preta que coloca ao ombro e desaparece para não mais regressar. Não é uma cliente habitual. Rui lamenta a possibilidade da rapariga poder nunca mais ali parar, e embrenha-se em pensamentos desconexos.
No café estão alguns idosos ocupados com as leituras dos jornais, entretidos com passatempos de papel e lápis. Sentados, isolados, tentam entender como é que o tempo lhes fugiu. Um deles discursa enquanto lê, gesticula, como se também estivesse acompanhado de um companheiro invisível. Sorri, vira a página do jornal, passa a mão pelas orelhas, mexe no nariz e nos lábios, tudo isto é feito enquanto mantém uma animada conversa com o amigo imaginário. Outros utilizam livros para voar.
Quando lhe falta a inspiração, recua e avança por entre personagens reais e fictícias. Os ruídos são o que mais o incomoda, todos os barulhos de fundo. As máquinas, a loiça a bater nas travessas, a porta de entrada giratória, a música de fundo, sem chama nenhuma, que procura criar ambiente, e todas as conversas. Tudo o distrai. Rui pratica o exercício impossível de tentar encontrar o silêncio neste caos onde escreve. Ao tentar encontrar palavras para as histórias, o escritor afasta tudo como velhas cortinas e entra naquele mundo misterioso onde habitam os contadores de histórias. Foi assim que ele criou as suas obras. Mas agora tudo mudou!
Não lhe resta mais nada.
- Tudo mudou, e depois tu apareceste! Não sinto a chama de outrora, nem escuto as minhas vozes, apenas a tua. Mas não te consigo ver, nem sei quem és. Tenho de escrever para viver, e isso tornou-se o maior dos pesadelos. Talvez essa seja mesmo a razão principal para a minha falta de inspiração. Antes, quando era apenas um ilustre desconhecido, sentia cada letra como um doce e cada palavra era um sorriso.
- Lá estás tu, de novo, a divagar! Onde estão as personagens que criaste? Ninguém quer saber se gostavas mais de escrever antes do que agora. Quem é que quer saber disso para alguma coisa? O que o leitor pretende é uma boa história, quer ser transportado para outros universos, com enredos sofisticados, apaladados… e tu estavas a seguir no bom caminho. As raparigas deviam ter-te inspirado, mas pensas demasiado nas coisas. Andas tenso, desorientado. As razões que apontas para a tua falta de génio parecem bater certo. Faltou-te mencionar a questão da preguiça. Tu és um gajo preguiçoso, muito preguiçoso. Se não consegues escrever pela manhã, escreve à hora de almoço, escreve durante a tarde, se não consegues escrever à tarde, escreve à noite, se não consegues escrever à noite, escreve de madrugada, escreve, escreve, escreve, escreve… deixa de arranjar desculpas, deixa de encontrar barreiras, e não te distraias demasiado com o quotidiano. Se os ruídos da vida te incomodam, procura locais silenciosos, se a luz te perturba, procura o retiro da escuridão, se os passageiros dos dias te fazem pensar, encontra a parede mais desinteressante para escreveres virado para ela. Não arranjes mais desculpas para a tua obra ficar parada. E se as músicas de fundo te aborrecem por não terem chama, escuta-me com atenção, escuta bem, ó escritor. A bela pianista do último piso toca maravilhosamente! Está na hora de lhe fazeres uma visita. A que história pertence a rapariga? Ela passou os últimos dias a compor. Não comeu, não dormiu, não bebeu, esteve nua, cara a cara com o universo. É disso que necessitas! Vai ter com ela para aprenderes uma bela lição. Sobe! De que é que estás à espera? Vai ter com a tua irlandesa. Foste tu que a descreveste, deves conhecê-la melhor do que ninguém.
- Imbecil! Não te vejo, mas continuas o mesmo imbecil de sempre. – responde o escritor bastante irritado.
- Não entendes nada da vida. Esta viagem ainda mal começou. Tu estás assim porque começaste a compreender. As cidades mostram partes de ti que preferias não teres de conhecer. Chamas-me imbecil, logo a mim que estou morto e apenas pretendo ajudar-te na construção da tua obra.
- Cheira bem, cheira tão bem! Alguém cozinhou bolos com aromas deliciosos.
Rui revê a imagem do corpo de Helen à janela.
- Perdi-me! Estava novamente a divagar. Pensava coisas que em nada contribuem para o avanço da minha história. Dou-te razão, e devo-te um pedido de desculpas. A pianista toca magistralmente. É um verdadeiro prodígio.
- Sim, a pianista é um espanto… e é capaz de compor melodias como ninguém.
O escritor perdeu a paixão, ao fim de tantos anos.
Rui ama a arte da escrita.
Através dela encontrou a mais perfeita forma de salvação.

sexta-feira, 8 de março de 2013

NA COMPANHIA DO SILÊNCIO




Refugiou-se no café onde costumava escrever.
O mês passou e as palavras não lhe aconteciam. Outro mês se passou, e as palavras teimavam em não acontecer.
Sem elas, a vida deixa de fazer sentido.
Rui procurou outro café, um outro local onde pudesse redescobrir as palavras que o abandonaram.
O Lopes insistia, com regularidade, e outro mês voava sem o regresso da inspiração.
Foi assim ao longo do ano e meio que demorou a escrever o último romance. Quase o dobro do tempo que gastara no penúltimo. Os dois foram recebidos com indiferença e as vendas têm sido uma desilusão.
A última obra é um perfeito exemplo da sua falta de génio. Um rol de banalidades numa história sem chama com personagens confusas e desinteressantes, embrulhadas numa escrita sem fulgor. O que mais lhe custou foi ter de suportar o sorriso amarelo do Lopes, e as muitas pancadinhas nas costas, servidas com palavras de circunstância:
- “Deixa lá, são fases! Todos os criadores passam por situações semelhantes. O teu próximo romance será uma verdadeira obra-prima! Começa desde já a pensar nisso.”
Rui entrou em todos os cafés, sentou-se a todas as cadeiras de todas as mesas. Em cada uma delas tentou escutar as palavras das vozes que lhe contam as histórias. Em todas elas encontrou a companhia do silêncio.

A deusa de ébano rasgou-lhe a roupa toda.
A deusa de ébano rasgou-lhe pedaços de carne enquanto se deliciava com o corpo do escritor, com os seus sumos.
O invisível há muito não se escuta.
Helen toca uma melodia triste e envolvente ao piano. O universo foi criado ao som de uma música semelhante.
-Começa a escrever! Aproveita estes momentos únicos de inspiração, e escreve! – diz o companheiro invisível.
As bailarinas cantam em coro a música da pianista.
A deusa de ébano mantém o escritor dentro de si, sente-o e abraça-o, e ri-se, e sangra e chora, e aperta-lhe as mãos e os dedos com força, e beija-o, e morde-lhe o lábio inferior, as orelhas, as sobrancelhas, o queixo, o peito, o pescoço.
Agora já não se ouve a melodia da irlandesa, nem os gritos estranhos do companheiro invisível, nem as vozes afinadíssimas das bailarinas, nem o ruído do tempo que passa.
- Como te chamas? – pergunta Rui com as mãos coladas nas nádegas da bailarina. Ela não responde. Continua com o jogo de prazer que o escritor acompanha.
Duas vidraças partem-se e delas saem mulheres de corpos esculturais.
- Porque escreves tu? – perguntam as bailarinas que se juntam ao escritor e à deusa de ébano. – Porque escreves e te esqueces de viver? Onde estão os teus filhos, ou filhas, a tua mulher, ou o teu homem, onde está a tua vida? O que vieste aqui fazer? Quem te trouxe à cidade inexistente? Porque te deixaste seduzir sem resistência? Porque nos chamaste, porque nos desejas? Tens contigo quem te dê prazer como nunca antes sentiste. Quem és tu, escritor, e o que pretendes?
Os corpos perfeitos das bailarinas são páginas com capítulos que nunca ousou escrever. Rui reage como ele próprio não esperaria.
- Isso, isso mesmo, rapaz! Inspira-te, sê verdadeiro, aproveita bem o tempo nesta cidade.
Helen toca uma música melancólica, e Rui perde-se nos corpos das três mulheres. Alimenta-se dos seios, dos cotovelos, dos lábios e dos cabelos das dançarinas. Regressa da deusa de ébano, descobre a deusa do norte. Tem as mãos saturadas com os odores do sexo das três mulheres, com os odores dos suores, com as cores do sangue que escorre pelas pernas feridas. Regressa da deusa do norte e descobre a deusa oriental, de olhos rasgados e olhar profundo.
- Isso, isso mesmo meu rapaz! Inspira-te, procura ser verdadeiro durante todo o tempo que aqui vamos passar.
A pianista ensaia uma estranha melodia, diferente de tudo o que se conhece tocado ao piano. Helen descobre como tirar partido do instrumento através de uma técnica inovadora. Suga-lhe os primeiros sons de uma nova construção melódica que acrescenta à obra.
Rui mantém o calor das mulheres junto ao seu. O dia passa, a noite e outro dia, e uma outra noite, outra vez.
A pianista irlandesa termina a primeira parte da sua obra durante este tempo. Não dorme, não come, não bebe, não descansa. Está nua, é assim que gosta de comunicar com o universo tocando o seu instrumento de eleição.
Que estranha é a cidade que o invisível lhe deu a conhecer.
A obra do escritor não cresce.
A obra de Helen começa a ganhar corpo, sonoridades ímpares tocadas numa técnica inovadora.
-Vais ver como a tua escrita se vai transformar. Esquece os cafés deselegantes e monótonos onde procuravas inspiração, esquece as cadeiras e as mesas onde te escondias a escrever. Esquece tudo isso. Mas nunca te esqueças deste mês incrível, caso contrário, o meu esforço terá sido em vão.
O sangue das feridas espalha-se pelo corpo do escritor.
- Sê bem-vindo à cidade inexistente. – exclamam em coro as dançarinas. – Sê bem-vindo à cidade de todos os prazeres.

Este é o café que Rui procurava. As cadeiras são feitas de corpos angelicais, as mesas são rostos delicados, e as palavras que lhe fugiram, regressam transformadas em notas musicais tocadas por uma extraordinária pianista.
Na cidade inexistente, as palavras não se escondem, as histórias brotam das vitrinas, estão vivas, sangram, tomam conta dos escritores para que estes possam continuar a criar as suas obras.
- Isso! Isso mesmo, rapaz! Inspira-te, deixa-te levar pelos prazeres da cidade, não tenhas medo de ser verdadeiro.
As bailarinas regressam às vitrinas estilhaçadas do edifício, que as recebem e ficam como novas. Saram as feridas e dançam ao ritmo da melodia de Helen.

- ESTÚPIDO! Um grande, grande ESTÚPIDO! O teu pai é mesmo um grande estúpido! O que vai ser agora de nós?
Sofia esperava muito da vida. Uma situação assim acontece todos os dias a tantos casais. Em pesadelos que nunca desejou, o cenário tinha-lhe sido participado. E agora, é bem real, está mesmo a acontecer. A ingrata, cruel realidade, resolveu bater-lhe à porta.
O Tiago está muito assustado a olhar para a mãe.
- O que foi que o pai te fez? O pai já não gosta de nós? O pai deixou de gostar de nós?
Sofia está de joelhos abraçada ao filho. Dor, raiva, desespero, o Tiago a soluçar, a fazer-lhe perguntas que não sabe responder.
- O pai vai deixar de viver connosco, já não vai voltar para casa? Vai ser como com os pais da Carlota, ela sabia que eles iam separar-se, mas não queria ficar a viver sozinha com a mãe. Eu gosto muito do pai, a sério, não consigo deixar de gostar dele, mãe. E tu? Vais deixar de gostar de mim por causa disso?
Sofia aperta Tiago ainda com mais força. Filha da puta da mulher que roubou o coração ao marido. Ela vai ter de as pagar, e o patife do Afonso, um parvo como só os homens sabem ser. Besta, um imbecil! Estúpido, mas que canalha tão parvo e tão estúpido lhe calhou como marido.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O UNIVERSO ELEGANTE



Tudo se passa como se fosse uma história, um conto, uma novela.
Carla sente-se uma personagem de um livro. É que as coisas não acontecem assim na vida real. O que mais desejava, acabou de se concretizar, e os ecos desse desejo ainda ecoam pelos prédios do bairro.
Caem-lhe lágrimas de alegria, de alívio, de dor e de receio.
Não se consegue mexer.
A campainha toca.
Está alguém à porta.
Não se consegue mexer.
A campainha toca, está alguém à porta, não se consegue mexer.
Não quer ver nem falar com ninguém.
O Armando teve aquilo que merecia. É só nisso que consegue pensar.
O corpo e o rosto carregam as marcas de um relacionamento tempestuoso que Carla pretende esquecer.
O Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, a campainha não para de tocar, a campainha não para de tocar, o Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, chora de alegria, de dor, de emoção, chora de alívio, chora principalmente de alívio, o Armando teve o fim que merecia.
A campainha para de tocar.
O telemóvel e o telefone não param de tocar.
Carla sai da varanda.
Desliga o telemóvel.
Desliga o telefone, desliga-se de tudo o que a incomoda, entra no quarto, fecha os estores, fecha a porta, fecha os olhos cansados, o corpo dormente e marcado, fecha-se do universo debaixo das roupas desfeitas da cama.
Alguém lê o livro com a história onde Carla existe, porque coisas assim não acontecem na vida real.

O universo desapareceu pela janela nas páginas do livro que Zé Paulo decidiu fazer voar. Asas feitas de folhas, páginas e palavras que explicam os intrincados fenómenos que acontecem num suposto universo elegante, e que relembra que as duas teorias que propiciaram o fabuloso progresso da física nos últimos cem são mutuamente incompatíveis. A tentativa ou o sucesso na resolução dos conflitos, leva-nos sempre até um outro conflito, diz essa obra. Palavras que falam de forças, matéria, uma mão cheia de teorias, princípios, explicações acerca dos mecanismos do universo, alguns efeitos, conceitos, comparações, visões, incompatibilidades, e outros pensamentos.
E o que dizer acerca dos buracos-negros, o big-bang e a expansão do universo? A mente humana talvez nunca seja capaz de entender como realmente opera o universo.
Mentiras, um chorrilho de mentiras adocicadas por uma capa lustrosa
Os leitores da obra são enganados, ou deixam-se enganar pela quantidade de falsas informações que o livro contém. Zé Paulo sabe muito bem como funciona o universo, sempre o soube, e isso é a causa principal das suas perturbações.
- Corre por aqui, mano! O pai é bem capaz de te matar. Vamos fugir e esperar que ele se acalme. – Disse-lhe o Alexandre naquela madrugada. Ele foi rápido a reagir, bem mais rápido que a mãe. Deolinda teve um fugaz momento de hesitação que durou um segundo. Zé Paulo tinha as mãos vincadas no pescoço do pai, mas ela não se moveu. O universo é um local violento, que permaneceu tranquilo durante aquele segundo.
- Corre por aqui, mano! A mãe vai acalmá-lo. Anda, sabe-se lá como é que o pai vai reagir a tudo isto.
Zé Paulo estava letárgico. As leis da física quântica passavam-lhe umas atrás das outras pela cabeça, enquanto fugia, nu, puxado por Alexandre.
- Nenhum tiro nos mataria, mano, nenhum! As balas seriam atraídas pela inimaginável massa do buraco negro que gravita à nossa volta. Seriam honestas connosco, deixar-nos-iam em paz. Acredita no que te digo, mano. Amanhã, este dia e esta noite terão desaparecido para sempre. Hoje ainda, durante o que resta desta noite, as lembranças serão uma mentira, jamais a realidade, nem tão pouco representarão partes da realidade. Construímos a nossa ideia de mundo partindo do pressuposto que todas as memórias, todas as lembranças são reais. Isso só prova que somos uns tolos. Mas uma coisa é certa, Alexandre, sem a tua amizade, este universo que habitamos já não seria igual. Tu sabes isso melhor do que ninguém.
Os dois irmãos correram para longe de casa, não fosse o revólver de Sepúlveda cuspir a última palavra.

- És louco? Tu é que és o louco desta casa! Que pai corre atrás de um filho de arma na mão?
Os olhos de Sepúlveda brilharam como os de um assassino.
A arma ardia-lhe nas mãos, o dedo tremia no gatilho.
A boca estava seca.
As sombras, todas as sombras, eram inimigas preparadas para o atacar.
O corredor cresceu, a mulher encolheu.
Jura ter visto a cara de Rogério a espreitar por uma fresta da porta do quarto, jura, mas não sabe, não sabe nada, e resolve começar a disparar.

- Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, mas tiveste aquilo que merecias.
O quarto está silencioso e escuro.
Carla pede desculpa pelo desejo concedido, tapada pelos lençóis.

Filipa liga o rádio do carro enquanto espera o pai e o sobrinho.
As notícias passam em quase todas as estações:
­“Uma pessoa morreu quando o carro explodiu após ter, presumivelmente, rodado a chave na ignição. Não há mais vítimas a lamentar, mas os estragos são muito consideráveis. Dezenas de viaturas ficaram danificadas e os vidros dos prédios vizinhos estilhaçaram com a violência da explosão. As autoridades já se encontram junto ao local do rebentamento. Segundo fontes próximas da polícia judiciária, suspeita-se que este seja o primeiro de uma possível onda de atentados”.
- Mas onde raio é que eles se terão metido? O pai nunca mais deixa o vício maldito… e precisamos de sair daqui antes que se generalize a barafunda. Tinha logo de acontecer uma coisa destas nesta altura.
Os dois surgem pelo meio dos veículos estacionados sem que Filipa se tenha apercebido. Assusta-se com a abertura das portas.
- CREDO! Nem vos vi chegar. Onde é que estavam?
- Vamos embora, tia. A polícia vai efetuar buscas ao aeroporto. Suspeitam de bombas no edifício. Não tarda nada, isto vai ficar um caos completo.
Augusto pensa que um atentado terrorista até pode ser uma coisa vantajosa. Se alguém destruísse por completo o aeroporto, mas sem causar vítimas, todos ganhariam com isso. O homem não foi feito para voar, o homem foi feito para caminhar com os pés bem assentes no chão!
- Se não te importas, vou fumar no carro. Desculpa lá, mas os nervos estão a dar-me cabo da paciência.
Filipa não responde ao pai. A fila para a saída do parque avança muito devagar, mesmo com a polícia a obrigar os condutores a saírem dali com rapidez.
A avenida está já ali, dentro em breve a rotunda, depois a segunda circular. Mas que manhã atribulada. E para ajudar à festa, eis que começa a chover com bastante intensidade.