quarta-feira, 13 de março de 2013

UMA PERFEITA FORMA DE SALVAÇÃO





Rui perdeu a paixão, ao fim de tantos anos, se é que alguma vez a sentiu.
Queria ser salvo por quem o compreendesse, mas a vida não funciona como um filme. A sua obra é agora um guião desgovernado.
No café onde o escritor encontrava as palavras, elas esgotaram-se. Acabaram! Cansaram-se de o auxiliar.
Não lhe resta mais nada.
Uma jovem toma um expresso em pé, ao balcão. O que será que ela pensa? Tem olhos negros intensos. Pega numa pequena mala preta que coloca ao ombro e desaparece para não mais regressar. Não é uma cliente habitual. Rui lamenta a possibilidade da rapariga poder nunca mais ali parar, e embrenha-se em pensamentos desconexos.
No café estão alguns idosos ocupados com as leituras dos jornais, entretidos com passatempos de papel e lápis. Sentados, isolados, tentam entender como é que o tempo lhes fugiu. Um deles discursa enquanto lê, gesticula, como se também estivesse acompanhado de um companheiro invisível. Sorri, vira a página do jornal, passa a mão pelas orelhas, mexe no nariz e nos lábios, tudo isto é feito enquanto mantém uma animada conversa com o amigo imaginário. Outros utilizam livros para voar.
Quando lhe falta a inspiração, recua e avança por entre personagens reais e fictícias. Os ruídos são o que mais o incomoda, todos os barulhos de fundo. As máquinas, a loiça a bater nas travessas, a porta de entrada giratória, a música de fundo, sem chama nenhuma, que procura criar ambiente, e todas as conversas. Tudo o distrai. Rui pratica o exercício impossível de tentar encontrar o silêncio neste caos onde escreve. Ao tentar encontrar palavras para as histórias, o escritor afasta tudo como velhas cortinas e entra naquele mundo misterioso onde habitam os contadores de histórias. Foi assim que ele criou as suas obras. Mas agora tudo mudou!
Não lhe resta mais nada.
- Tudo mudou, e depois tu apareceste! Não sinto a chama de outrora, nem escuto as minhas vozes, apenas a tua. Mas não te consigo ver, nem sei quem és. Tenho de escrever para viver, e isso tornou-se o maior dos pesadelos. Talvez essa seja mesmo a razão principal para a minha falta de inspiração. Antes, quando era apenas um ilustre desconhecido, sentia cada letra como um doce e cada palavra era um sorriso.
- Lá estás tu, de novo, a divagar! Onde estão as personagens que criaste? Ninguém quer saber se gostavas mais de escrever antes do que agora. Quem é que quer saber disso para alguma coisa? O que o leitor pretende é uma boa história, quer ser transportado para outros universos, com enredos sofisticados, apaladados… e tu estavas a seguir no bom caminho. As raparigas deviam ter-te inspirado, mas pensas demasiado nas coisas. Andas tenso, desorientado. As razões que apontas para a tua falta de génio parecem bater certo. Faltou-te mencionar a questão da preguiça. Tu és um gajo preguiçoso, muito preguiçoso. Se não consegues escrever pela manhã, escreve à hora de almoço, escreve durante a tarde, se não consegues escrever à tarde, escreve à noite, se não consegues escrever à noite, escreve de madrugada, escreve, escreve, escreve, escreve… deixa de arranjar desculpas, deixa de encontrar barreiras, e não te distraias demasiado com o quotidiano. Se os ruídos da vida te incomodam, procura locais silenciosos, se a luz te perturba, procura o retiro da escuridão, se os passageiros dos dias te fazem pensar, encontra a parede mais desinteressante para escreveres virado para ela. Não arranjes mais desculpas para a tua obra ficar parada. E se as músicas de fundo te aborrecem por não terem chama, escuta-me com atenção, escuta bem, ó escritor. A bela pianista do último piso toca maravilhosamente! Está na hora de lhe fazeres uma visita. A que história pertence a rapariga? Ela passou os últimos dias a compor. Não comeu, não dormiu, não bebeu, esteve nua, cara a cara com o universo. É disso que necessitas! Vai ter com ela para aprenderes uma bela lição. Sobe! De que é que estás à espera? Vai ter com a tua irlandesa. Foste tu que a descreveste, deves conhecê-la melhor do que ninguém.
- Imbecil! Não te vejo, mas continuas o mesmo imbecil de sempre. – responde o escritor bastante irritado.
- Não entendes nada da vida. Esta viagem ainda mal começou. Tu estás assim porque começaste a compreender. As cidades mostram partes de ti que preferias não teres de conhecer. Chamas-me imbecil, logo a mim que estou morto e apenas pretendo ajudar-te na construção da tua obra.
- Cheira bem, cheira tão bem! Alguém cozinhou bolos com aromas deliciosos.
Rui revê a imagem do corpo de Helen à janela.
- Perdi-me! Estava novamente a divagar. Pensava coisas que em nada contribuem para o avanço da minha história. Dou-te razão, e devo-te um pedido de desculpas. A pianista toca magistralmente. É um verdadeiro prodígio.
- Sim, a pianista é um espanto… e é capaz de compor melodias como ninguém.
O escritor perdeu a paixão, ao fim de tantos anos.
Rui ama a arte da escrita.
Através dela encontrou a mais perfeita forma de salvação.

sexta-feira, 8 de março de 2013

NA COMPANHIA DO SILÊNCIO




Refugiou-se no café onde costumava escrever.
O mês passou e as palavras não lhe aconteciam. Outro mês se passou, e as palavras teimavam em não acontecer.
Sem elas, a vida deixa de fazer sentido.
Rui procurou outro café, um outro local onde pudesse redescobrir as palavras que o abandonaram.
O Lopes insistia, com regularidade, e outro mês voava sem o regresso da inspiração.
Foi assim ao longo do ano e meio que demorou a escrever o último romance. Quase o dobro do tempo que gastara no penúltimo. Os dois foram recebidos com indiferença e as vendas têm sido uma desilusão.
A última obra é um perfeito exemplo da sua falta de génio. Um rol de banalidades numa história sem chama com personagens confusas e desinteressantes, embrulhadas numa escrita sem fulgor. O que mais lhe custou foi ter de suportar o sorriso amarelo do Lopes, e as muitas pancadinhas nas costas, servidas com palavras de circunstância:
- “Deixa lá, são fases! Todos os criadores passam por situações semelhantes. O teu próximo romance será uma verdadeira obra-prima! Começa desde já a pensar nisso.”
Rui entrou em todos os cafés, sentou-se a todas as cadeiras de todas as mesas. Em cada uma delas tentou escutar as palavras das vozes que lhe contam as histórias. Em todas elas encontrou a companhia do silêncio.

A deusa de ébano rasgou-lhe a roupa toda.
A deusa de ébano rasgou-lhe pedaços de carne enquanto se deliciava com o corpo do escritor, com os seus sumos.
O invisível há muito não se escuta.
Helen toca uma melodia triste e envolvente ao piano. O universo foi criado ao som de uma música semelhante.
-Começa a escrever! Aproveita estes momentos únicos de inspiração, e escreve! – diz o companheiro invisível.
As bailarinas cantam em coro a música da pianista.
A deusa de ébano mantém o escritor dentro de si, sente-o e abraça-o, e ri-se, e sangra e chora, e aperta-lhe as mãos e os dedos com força, e beija-o, e morde-lhe o lábio inferior, as orelhas, as sobrancelhas, o queixo, o peito, o pescoço.
Agora já não se ouve a melodia da irlandesa, nem os gritos estranhos do companheiro invisível, nem as vozes afinadíssimas das bailarinas, nem o ruído do tempo que passa.
- Como te chamas? – pergunta Rui com as mãos coladas nas nádegas da bailarina. Ela não responde. Continua com o jogo de prazer que o escritor acompanha.
Duas vidraças partem-se e delas saem mulheres de corpos esculturais.
- Porque escreves tu? – perguntam as bailarinas que se juntam ao escritor e à deusa de ébano. – Porque escreves e te esqueces de viver? Onde estão os teus filhos, ou filhas, a tua mulher, ou o teu homem, onde está a tua vida? O que vieste aqui fazer? Quem te trouxe à cidade inexistente? Porque te deixaste seduzir sem resistência? Porque nos chamaste, porque nos desejas? Tens contigo quem te dê prazer como nunca antes sentiste. Quem és tu, escritor, e o que pretendes?
Os corpos perfeitos das bailarinas são páginas com capítulos que nunca ousou escrever. Rui reage como ele próprio não esperaria.
- Isso, isso mesmo, rapaz! Inspira-te, sê verdadeiro, aproveita bem o tempo nesta cidade.
Helen toca uma música melancólica, e Rui perde-se nos corpos das três mulheres. Alimenta-se dos seios, dos cotovelos, dos lábios e dos cabelos das dançarinas. Regressa da deusa de ébano, descobre a deusa do norte. Tem as mãos saturadas com os odores do sexo das três mulheres, com os odores dos suores, com as cores do sangue que escorre pelas pernas feridas. Regressa da deusa do norte e descobre a deusa oriental, de olhos rasgados e olhar profundo.
- Isso, isso mesmo meu rapaz! Inspira-te, procura ser verdadeiro durante todo o tempo que aqui vamos passar.
A pianista ensaia uma estranha melodia, diferente de tudo o que se conhece tocado ao piano. Helen descobre como tirar partido do instrumento através de uma técnica inovadora. Suga-lhe os primeiros sons de uma nova construção melódica que acrescenta à obra.
Rui mantém o calor das mulheres junto ao seu. O dia passa, a noite e outro dia, e uma outra noite, outra vez.
A pianista irlandesa termina a primeira parte da sua obra durante este tempo. Não dorme, não come, não bebe, não descansa. Está nua, é assim que gosta de comunicar com o universo tocando o seu instrumento de eleição.
Que estranha é a cidade que o invisível lhe deu a conhecer.
A obra do escritor não cresce.
A obra de Helen começa a ganhar corpo, sonoridades ímpares tocadas numa técnica inovadora.
-Vais ver como a tua escrita se vai transformar. Esquece os cafés deselegantes e monótonos onde procuravas inspiração, esquece as cadeiras e as mesas onde te escondias a escrever. Esquece tudo isso. Mas nunca te esqueças deste mês incrível, caso contrário, o meu esforço terá sido em vão.
O sangue das feridas espalha-se pelo corpo do escritor.
- Sê bem-vindo à cidade inexistente. – exclamam em coro as dançarinas. – Sê bem-vindo à cidade de todos os prazeres.

Este é o café que Rui procurava. As cadeiras são feitas de corpos angelicais, as mesas são rostos delicados, e as palavras que lhe fugiram, regressam transformadas em notas musicais tocadas por uma extraordinária pianista.
Na cidade inexistente, as palavras não se escondem, as histórias brotam das vitrinas, estão vivas, sangram, tomam conta dos escritores para que estes possam continuar a criar as suas obras.
- Isso! Isso mesmo, rapaz! Inspira-te, deixa-te levar pelos prazeres da cidade, não tenhas medo de ser verdadeiro.
As bailarinas regressam às vitrinas estilhaçadas do edifício, que as recebem e ficam como novas. Saram as feridas e dançam ao ritmo da melodia de Helen.

- ESTÚPIDO! Um grande, grande ESTÚPIDO! O teu pai é mesmo um grande estúpido! O que vai ser agora de nós?
Sofia esperava muito da vida. Uma situação assim acontece todos os dias a tantos casais. Em pesadelos que nunca desejou, o cenário tinha-lhe sido participado. E agora, é bem real, está mesmo a acontecer. A ingrata, cruel realidade, resolveu bater-lhe à porta.
O Tiago está muito assustado a olhar para a mãe.
- O que foi que o pai te fez? O pai já não gosta de nós? O pai deixou de gostar de nós?
Sofia está de joelhos abraçada ao filho. Dor, raiva, desespero, o Tiago a soluçar, a fazer-lhe perguntas que não sabe responder.
- O pai vai deixar de viver connosco, já não vai voltar para casa? Vai ser como com os pais da Carlota, ela sabia que eles iam separar-se, mas não queria ficar a viver sozinha com a mãe. Eu gosto muito do pai, a sério, não consigo deixar de gostar dele, mãe. E tu? Vais deixar de gostar de mim por causa disso?
Sofia aperta Tiago ainda com mais força. Filha da puta da mulher que roubou o coração ao marido. Ela vai ter de as pagar, e o patife do Afonso, um parvo como só os homens sabem ser. Besta, um imbecil! Estúpido, mas que canalha tão parvo e tão estúpido lhe calhou como marido.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O UNIVERSO ELEGANTE



Tudo se passa como se fosse uma história, um conto, uma novela.
Carla sente-se uma personagem de um livro. É que as coisas não acontecem assim na vida real. O que mais desejava, acabou de se concretizar, e os ecos desse desejo ainda ecoam pelos prédios do bairro.
Caem-lhe lágrimas de alegria, de alívio, de dor e de receio.
Não se consegue mexer.
A campainha toca.
Está alguém à porta.
Não se consegue mexer.
A campainha toca, está alguém à porta, não se consegue mexer.
Não quer ver nem falar com ninguém.
O Armando teve aquilo que merecia. É só nisso que consegue pensar.
O corpo e o rosto carregam as marcas de um relacionamento tempestuoso que Carla pretende esquecer.
O Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, a campainha não para de tocar, a campainha não para de tocar, o Armando teve aquilo que merecia, o Armando teve aquilo que merecia, chora de alegria, de dor, de emoção, chora de alívio, chora principalmente de alívio, o Armando teve o fim que merecia.
A campainha para de tocar.
O telemóvel e o telefone não param de tocar.
Carla sai da varanda.
Desliga o telemóvel.
Desliga o telefone, desliga-se de tudo o que a incomoda, entra no quarto, fecha os estores, fecha a porta, fecha os olhos cansados, o corpo dormente e marcado, fecha-se do universo debaixo das roupas desfeitas da cama.
Alguém lê o livro com a história onde Carla existe, porque coisas assim não acontecem na vida real.

O universo desapareceu pela janela nas páginas do livro que Zé Paulo decidiu fazer voar. Asas feitas de folhas, páginas e palavras que explicam os intrincados fenómenos que acontecem num suposto universo elegante, e que relembra que as duas teorias que propiciaram o fabuloso progresso da física nos últimos cem são mutuamente incompatíveis. A tentativa ou o sucesso na resolução dos conflitos, leva-nos sempre até um outro conflito, diz essa obra. Palavras que falam de forças, matéria, uma mão cheia de teorias, princípios, explicações acerca dos mecanismos do universo, alguns efeitos, conceitos, comparações, visões, incompatibilidades, e outros pensamentos.
E o que dizer acerca dos buracos-negros, o big-bang e a expansão do universo? A mente humana talvez nunca seja capaz de entender como realmente opera o universo.
Mentiras, um chorrilho de mentiras adocicadas por uma capa lustrosa
Os leitores da obra são enganados, ou deixam-se enganar pela quantidade de falsas informações que o livro contém. Zé Paulo sabe muito bem como funciona o universo, sempre o soube, e isso é a causa principal das suas perturbações.
- Corre por aqui, mano! O pai é bem capaz de te matar. Vamos fugir e esperar que ele se acalme. – Disse-lhe o Alexandre naquela madrugada. Ele foi rápido a reagir, bem mais rápido que a mãe. Deolinda teve um fugaz momento de hesitação que durou um segundo. Zé Paulo tinha as mãos vincadas no pescoço do pai, mas ela não se moveu. O universo é um local violento, que permaneceu tranquilo durante aquele segundo.
- Corre por aqui, mano! A mãe vai acalmá-lo. Anda, sabe-se lá como é que o pai vai reagir a tudo isto.
Zé Paulo estava letárgico. As leis da física quântica passavam-lhe umas atrás das outras pela cabeça, enquanto fugia, nu, puxado por Alexandre.
- Nenhum tiro nos mataria, mano, nenhum! As balas seriam atraídas pela inimaginável massa do buraco negro que gravita à nossa volta. Seriam honestas connosco, deixar-nos-iam em paz. Acredita no que te digo, mano. Amanhã, este dia e esta noite terão desaparecido para sempre. Hoje ainda, durante o que resta desta noite, as lembranças serão uma mentira, jamais a realidade, nem tão pouco representarão partes da realidade. Construímos a nossa ideia de mundo partindo do pressuposto que todas as memórias, todas as lembranças são reais. Isso só prova que somos uns tolos. Mas uma coisa é certa, Alexandre, sem a tua amizade, este universo que habitamos já não seria igual. Tu sabes isso melhor do que ninguém.
Os dois irmãos correram para longe de casa, não fosse o revólver de Sepúlveda cuspir a última palavra.

- És louco? Tu é que és o louco desta casa! Que pai corre atrás de um filho de arma na mão?
Os olhos de Sepúlveda brilharam como os de um assassino.
A arma ardia-lhe nas mãos, o dedo tremia no gatilho.
A boca estava seca.
As sombras, todas as sombras, eram inimigas preparadas para o atacar.
O corredor cresceu, a mulher encolheu.
Jura ter visto a cara de Rogério a espreitar por uma fresta da porta do quarto, jura, mas não sabe, não sabe nada, e resolve começar a disparar.

- Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, mas tiveste aquilo que merecias.
O quarto está silencioso e escuro.
Carla pede desculpa pelo desejo concedido, tapada pelos lençóis.

Filipa liga o rádio do carro enquanto espera o pai e o sobrinho.
As notícias passam em quase todas as estações:
­“Uma pessoa morreu quando o carro explodiu após ter, presumivelmente, rodado a chave na ignição. Não há mais vítimas a lamentar, mas os estragos são muito consideráveis. Dezenas de viaturas ficaram danificadas e os vidros dos prédios vizinhos estilhaçaram com a violência da explosão. As autoridades já se encontram junto ao local do rebentamento. Segundo fontes próximas da polícia judiciária, suspeita-se que este seja o primeiro de uma possível onda de atentados”.
- Mas onde raio é que eles se terão metido? O pai nunca mais deixa o vício maldito… e precisamos de sair daqui antes que se generalize a barafunda. Tinha logo de acontecer uma coisa destas nesta altura.
Os dois surgem pelo meio dos veículos estacionados sem que Filipa se tenha apercebido. Assusta-se com a abertura das portas.
- CREDO! Nem vos vi chegar. Onde é que estavam?
- Vamos embora, tia. A polícia vai efetuar buscas ao aeroporto. Suspeitam de bombas no edifício. Não tarda nada, isto vai ficar um caos completo.
Augusto pensa que um atentado terrorista até pode ser uma coisa vantajosa. Se alguém destruísse por completo o aeroporto, mas sem causar vítimas, todos ganhariam com isso. O homem não foi feito para voar, o homem foi feito para caminhar com os pés bem assentes no chão!
- Se não te importas, vou fumar no carro. Desculpa lá, mas os nervos estão a dar-me cabo da paciência.
Filipa não responde ao pai. A fila para a saída do parque avança muito devagar, mesmo com a polícia a obrigar os condutores a saírem dali com rapidez.
A avenida está já ali, dentro em breve a rotunda, depois a segunda circular. Mas que manhã atribulada. E para ajudar à festa, eis que começa a chover com bastante intensidade.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A DEUSA DE ÉBANO



Muitos alunos têm faltado às aulas nos últimos dias. A gripe, viroses, constipações, e outras maleitas com sintomas febris, reduziram o número de alunos nas escolas. A turma de Susana é disso um bom exemplo. Estão a faltar o Rodrigo, a Maria Inês, o Gonçalo, o Bernardo, a Joana e até o Jorge, que nunca falta, nem mesmo às aulas de substituição.
A professora aproveita o início da lição para carregar o telemóvel que se desligara no elevador. Mantém-no em silêncio, guardado dentro da mala que coloca no chão junto à tomada.
- Vamos lá, meninos, não podemos perder mais tempo. Hoje é a vez da Joana vir ao quadro corrigir o T.P.C..
Vicente, moço vivaço, avisa de imediato que a colega está a faltar.
- Ó “stora”, a Joana não veio, … nem o “Bernas”! O “RR” mandou-me uma mensagem a dizer que vai faltar porque está cheio de febre. Até o mongo do “Jojó” se está a baldar. Já viu, “stora”, “ganda” cena, o Jojó a faltar! O puto nunca falta, nem quando está doente! É mesmo um ranhoso!
A turma reage com risotas às graçolas do rapaz, que só tiveram o propósito de atrasar ainda mais o início da aula.
- Mas que pena não teres sido tu a ficar doente, Vicente, é uma pena! Vê lá se te cai um dentinho. Como a Joana não está, podes vir tu ao quadro fazer a correcção do trabalho de casa. Até calhou bem! Anda, vem ao quadro antes que eu te ponha lá fora de castigo.
Vicente arrependeu-se de ter aberto a boca. Detesta quando o chamam ao quadro, e detesta ver os rostos dos colegas. Iam fazer cara de gozo se dissesse que não fez o T.P.C., por isso, resolve não dar parte fraca. Pega no livro, e prepara-se para tentar resolver os exercícios, em direto, no quadro branco da sala. Vale mais isso do que colecionar outra participação por falhar com os deveres. É que a mão do pai doeu-lhe bastante da última vez…

Jorge caminha a bom ritmo. O homem da ponte ainda é capaz de andar por lá! A chuva não estava no programa, e ele abriga-se numa das paragens de autocarro da avenida. Ninguém parece estranhar andar por ali um rapazinho tão novo, de mala às costas, em pleno horário escolar.
São horas vazias, horas cinzentas e molhadas, horas que consomem os seres invisíveis, dia após dia, que os mantém alienados, ausentes, e os impedem de prestar a devida atenção aos detalhes da obra.
Enquanto chove, param três autocarros, que recebem mais passageiros do que os que semeiam.
Jorge espera que a chuva pare. Enquanto aguarda, pensa no homem das barbas e cabelos longos, pensa nele com muita força, e sente que nada disto faz grande sentido. Um homem a passear pela ponte não é uma coisa normal. Mais estranho foi ninguém se ter preocupado, e nem o pai deu conta disso. Também não é normal ele faltar às aulas.
As pessoas que esperam, como ele, que a chuva passe, também não o vêem.
O chapéu da selecção que o senhor trazia na cabeça era igualzinho ao que o pai lhe comprou quando foram ver o Ronaldo e o Nani ao estádio da Luz.
Outro autocarro chega à paragem. Vomita mais passageiros do que engole.
Jorge pensa que talvez seja melhor voltar para a escola. Está a chover e ainda lhe falta andar um bom bocado até chegar à ponte. O que estaria aquele homem a fazer lá em cima? Onde se terá escondido para ter desaparecido assim tão depressa?

Augusto só se acalma a meio do segundo cigarro. O homem não foi feito para voar. Ver as nuvens por cima, só quando sobe ao alto das serras e observa o manto de neblina a cobrir os vales e o leito do rio. Mas os pés, esses estão sempre em contacto com a terra firme que o há-de receber.
- Que porra de situação! Puta de vida esta, e a idade já não ajuda!
Os filhos precisam de si, ainda precisam de si.
O idoso apaga a beata, e com ela a recordação dos voos. Augusto queria poder apagar todas as merdas em que o António se meteu, com um dos sócios franceses, só que essas não se apagam com a mesma facilidade.
A filha e o neto aguardam-no, em silêncio, junto ao carro. Olham um para o outro, Joel encolhe os ombros, Filipa lança um suspiro.
Um alvoroço de sirenes dos bombeiros e da polícia, que vão chegando, ecoam pelo estacionamento do aeroporto.
Pelo que escutam das conversas de quem passa, alguém mencionou bombas e que aconteceu uma grande explosão ali por perto. Receia-se uma vaga de atentados. O melhor é saírem do parque o mais depressa possível, antes que se generalize a barafunda.
- Vai ver onde se meteu o teu avô! Vai, despacha-te, não pode estar muito longe. Não tarda muito, isto vai ficar uma grande confusão.

- Estranhas e maravilhosas! Que perfeitas donzelas, e dançam tão bem. O difícil é escolher. Precisamos de um mês para resolver a equação. O que me dizes, escritor? Que tal passarmos o mês inteiro neste prédio iluminado? Inspiração e criatividade não te faltarão depois de uma experiência assim.
O invisível avança, determinado, e atravessa a porta de entrada do edifício. As bailarinas nuas continuam a publicitar as formas e os dotes, com mestria, em cada uma das janelas-montra da fachada.
Helen ainda não escreveu toda a melodia que compôs durante o banho. O seu corpo molhado é um dos trinta que baila ao ritmo da obra inacabada.
Rui olha para a janela onde a pianista se entretém a compor. O seu lugar é lá em cima, junto à irlandesa, que já está sentada ao piano a tocar. É a primeira vez que se escutam estas duzentas notas que fazem vibrar o ar, e o escritor não as compreende. As outras dançarinas param de bailar. Começam a arranhar as vidraças com as unhas afiadas. Não querem saber do amor, não querem saber nada acerca desse sentimento mentiroso. Uma delas parte o vidro da montra com um pontapé violento. Fere o pé e a perna direita até ao joelho. Olha, com raiva, para o rosto do escritor. Nua, enfurecida, observa Rui que se mantém sereno perante a situação.
A jovem de pele morena e cabelos negros ataca-o. Os lábios da bailarina beijam-no enquanto ela lhe rasga as vestes e o domina.
Helen continua a tocar a obra inacabada no piano do apartamento, e o escritor recebe o corpo perfumado da deusa de ébano que o acaba de possuir.
- Então rapaz? Vem até cá acima, sobe pelas escadas, não te faças rogado. Este vai ser um mês que jamais irás esquecer.

A chuva parou.
Jorge já sabe para qual dos lados avançar.
Retoma o caminho que o levará até à ponte.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O ALINHAMENTO DO UNIVERSO



O agente telefonou, Rui não respondeu. A obra está parada e tudo o que ele lhe pudesse dizer, enervá-lo-ia ainda mais.

- Anda toda a gente doente, é o que eu te digo. Esta gripe anda a dar cabo da vida ao pessoal. Não temos mãos a medir, e até já tivemos de encaminhar doentes para outras urgências. Estamos a atingir o ponto de rotura. E tu, como tens passado desde o ano novo? Não te esqueças de fazer tudo o que eu te disse, mano! A última coisa que desejamos é que tenhas uma recaída. Anda lá, faz tudo conforme combinámos. Amanhã ou depois volto a ligar-te. Sim, eu sei, não é nada disso, é claro que não te ando a controlar. Tenho a vida ocupada de mais para te andar a controlar. Da próxima vez, podes ser tu a ligar-me, hem? O que é que achas? Telefona-me no próximo sábado. Tens lido o livro que te ofereci? Ótimo, ainda bem, eu sabia que ias gostar.
O coração de Rogério fica acelerado quando fala com o irmão Zé Paulo. As imagens da infância, naquela noite em que a vida de todos mudou, nunca desapareceram. A vida avançou, mas o mundo ficou de pernas para o ar. O medo que sentiu foi tão grande, tão intenso, que ele acabou por escolher a profissão por causa disso. “O pai mata-me se eu não obedecer à sua vontade”. – pensava, e depois viu-o, de arma na mão, a mãe aos gritos, os irmãos abraçados, o Zé Paulo nu, vermelho como o sangue, a desafiar as forças mais poderosas do universo, como ele gostava de afirmar.
É sempre assim, quando fala com o irmão. As memórias invadem-no, descontroladas, e basta apenas pensar nele.
Zé Paulo não gosta que Rogério lhe ligue com frequência. Tanta atenção só lhe faz mal. O tempo custa a passar.
O livro que ele lhe ofereceu é bom, mas os medicamentos dão-lhe sono e passa mais tempo a dormitar do que a ler.
Encosta-se à janela. As vistas fazem-lhe companhia. Adormece a olhar para a cidade, acorda e olha de novo a cidade.
O livro caiu para o chão, e ficou com as páginas dobradas. Silencioso, de capa e contracapa forradas com imagens que nada têm a ver com as palavras que guarda. Mentirosas. O universo pode ser muita coisa, mas não mente, e ninguém o conseguiu ler, interpretar, equacionar, nem tão pouco explicá-lo como merece.
Zé Paulo gosta de olhar o céu pela calada da noite. As madrugadas são serenas, encantadoras. É de noite que consegue pensar com maior clareza. O universo encontra-se numa permanente revolução, é selvagem, livre, verdadeiro, maravilhoso. Inveja-o todos os dias, e depois já não o inveja porque ele é o universo, maravilhoso em todas as suas imperfeições.
- Vejo-te como és. Entendo o teu sorriso, sei porque sorris e porque danças. Conheço-te, sei bem daquilo que és capaz. Hoje, volto a lamentar não ter tido coragem suficiente para o ter derrotado naquele dia. Já o teu poder, é infinito, e as tuas estradas são eternas. Ainda não tinha chegado o meu tempo. O meu irmão está cada vez mais chato, mas sei porque procede assim. Os buracos negros atraem-se. Ainda não consigo calcular os efeitos que uma tal colisão provocaria. Quatro buracos negros gravitam ao redor de um buraco branco. A quantidade de energia que ali se concentra é inaudita, tão intensa e poderosa que resolvem não colidir. Observam-se, movimentam-se, sugam tudo o que por lá se encontra, matéria, tempo, luz, e o espaço que existe entre eles até nada mais restar. Depois, conversam uns com os outros, sorriem, trocam impressões, aguardam, até que o universo desapareça no que outrora foi o espaço que entre eles existiu. Este é um fenómeno que está a acontecer neste preciso momento, lá fora, naquele lugar infinito que ninguém consegue interpretar. Somos tudo aquilo que não conhecemos. Respeito a sinceridade perturbadora do universo, foi ela quem me ensinou que eu sou o que ainda não conheço.
O livro já não mora no chão, repousa em cima da mesa da sala. A capa brilhante reflete o corpo nu de Zé Paulo, reflete as estrelas do céu onde vai dançando uma meia-lua luminosa. O telemóvel vibra ao receber uma mensagem do Rogério. As forças são desiguais, e para qualquer lado que ele olhe, só encontra o que não desejava encontrar. O livro voou pela janela, desgovernado, como um pássaro ferido.

O telemóvel volta a tocar.
O Lopes não desiste.
Precisa de falar urgentemente com o escritor.
É preciso começar a tratar da capa.
Rui sorri ao imaginá-la com uma fotografia do prédio em frente.
Na nova cidade, trinta são as janelas do edifício.
Em cada janela dança uma bailarina nua.
São pérolas de corpos perfeitos a anunciar prazer.

Os bombeiros, as ambulâncias e a polícia chegam ao local da explosão. As pessoas são afastadas e cria-se um perímetro de segurança. O fumo negro eleva-se nos céus. O universo é feito de alinhamentos, de fenómenos incompreensíveis a que alguns chamam coincidências.
Carla vê, mas não quer acreditar.
Hoje, o universo transformou-se no seu maior amigo.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

UMA PUTA DO DEMÓNIO



Fogem-lhe as palavras, como as vidas das personagens que tenta relacionar.
O duche está a saber-lhe melhor do que um sonho.
Rui regressou da cidade infernal sem saber como. Quais serão os motivos que levam o ajudante invisível a visitar esses lugares?
- Mentira! É mentira! Tu sabes bem o que sentiste quando te aventuraste pela cidade.
O apartamento não sofreu danos. Os móveis, mesas, cadeiras, prateleiras, a aparelhagem, o televisor, as coleções de livros, filmes e discos, tudo está nas devidas condições. Apenas a tampa da caneta com que escreve se encontra abandonada no meio do chão, junto às pernas do sofá. Nenhum projétil danificou o edifício, foi como se aquele horror imenso não tivesse acontecido.
Rui prende a toalha à volta da cintura, vai até à sala e olha a vista da janela. Uma jovem nua rabisca uma folha num dos apartamentos do prédio em frente. A bela ruiva não deve ter dado conta de que a janela está tão aberta que lhe publicita a figura.
- Devo estar mesmo a sonhar! – exclama Rui quase a gritar.
Tal como a sua irlandesa, a jovem do prédio em frente não se apercebeu que está nua perante o mundo, e que este lhe agradece a distração.
- Uma maravilha, Rui! Repara como são perfeitos aqueles seios apetitosos de generosas proporções. Uns mamilos tenros, pele branca, cabelos longos e molhados a iluminarem-lhe os ombros, as clavículas, e as faces do rosto delgado.
Um anjo branco de cabelos húmidos lançados sobre uns ombros largos, tocam-lhe na cara formosa, descem pelas clavículas vincadas até aos seios perfeitos. A rapariga não dá conta que está a ser observada do prédio do escritor. Rui sabe que ela nunca antes se deixou ver. Ele tão pouco se recorda do prédio existir ali naquele lugar.
- É mesmo maravilhosa, Rui! E agora, prepara-te, porque em todas as janelas do novo edifício vão surgir jovens raparigas, nuas, provocantes, de todas as raças, com cabelos longos e molhados, de seios e mamilos pecaminosos. Inspira-te, inspira-te, inspira-te nesta visão, inspira-te, sai para as ruas, vai percorrer as ruelas e calçadas desta nova cidade.
Os sons estão de regresso, e envolvem o escritor. Chegam de um lugar ainda distante. Apitos, primeiro, rumores, de seguida, até que a surdez é vencida por ruídos abafados, sons idênticos aos provocados por uma chuvada intensa e que aumentam à medida que as janelas do prédio da frente se vão abrindo.
Mais de trinta mulheres despidas surgem às janelas, montras de néon colorido onde publicitam os corpos perfeitos. Improvisam passos de dança, em posses ousadas e sedutoras.
- Que cidade é esta? – pergunta o escritor, ainda aos berros, perante o insólito espetáculo.
- Gostas? É uma verdadeira animação! Vai-te vestir, ou preferes andar assim pelas ruas da cidade. Vem, vamos festejar, que tu bem precisas. Passas a maior parte do teu tempo fechado nesses pensamentos, sempre a inventar personagens. Vem para a festa, vamos ter com aquelas fantásticas mulheres que ali dançam para nós. Esquece a cidade da guerra, esquece a cidade dos pobres e dos que apenas sobrevivem, esquece a cidade dos que querem ir para a guerra para fugir das guerras da sua própria casa. Foge, foge até junto das bailarinas, refugia-te nos seus colos e seios perfumados, nos lábios doces e carnudos, nas coxas sensuais e nas nádegas roliças. Anda, vamos afogar as mágoas antes que a cidade desapareça.
O invisível está alterado. Promove a expedição ao edifício do prazer para espevitar a alma do escritor. Até que ponto a experiência o conseguirá inspirar? Pode ser que isto ajude, pois a obra está mesmo muito atrasada.

Os sábados quentes de Isilda e Anacleto acabaram nas bocas do mundo.
Isilda ganhou uma fama que não desejava, e que ultrapassou as fronteiras da paróquia, da freguesia, do concelho. Quando a história chegou aos ouvidos do senhor bispo, chamou-lhe puta do demónio com a mesma rapidez com que o pecado lhe foi relatado pela beata do costume.
- Puta do demónio, são umas putas do demónio e merecem as chamas do inferno! – bradava o ilustríssimo prelado, enquanto se benzia sentado na sanita. - Mulher vadia, mas que puta do demónio, Deus me perdoe…