segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

UM HERÓI AMANTE


Os sonhos encerram um estranho poder. Conseguem alterar a realidade, embrulham-na numa neblina densa e luminosa, como a que envolve Sofia e a impede de se aquecer.
- Porque não vieste logo falar comigo, Afonso? O que foi que eu te fiz para merecer isto? Era óbvio que precisávamos de conversar. Nunca arranjavas tempo para termos uma conversa decente, e agora é que me queres falar desse teu caso? Logo hoje… mas está bem, então senta-te, senta-te e fala. Gostava de perceber como chegámos a este ponto. Desde que nos conhecemos que te abri o coração, que sempre fui igual a mim mesma. Tu sabias muito bem quem eu era e como eu era, e foi por isso que me escolheste para partilhar a vida. Pergunto-me agora se tu és mesmo a pessoa que julguei que fosses. Pergunto-me se não confundiste amor verdadeiro com atração. Será que alguma vez te entregaste como eu me entreguei a ti? Está claro que não. Começámos uma família, mas nem o nosso filho tem força para te prender. Não é que o quisesse… Não queria que ficasses comigo pelo nosso filho, mas por mim. Por mim, Sofia, a tua mulher, a tua amiga, a tua amante… Mas hoje, hoje é que me vens com essa conversa de que os teus sentimentos te pregaram uma partida? Ensaiei cada palavra das que te queria dizer, mas o choque é tão grande, a dor é tão profunda, o vazio é tão negro que nenhuma palavra chega para te fazer sentir o que me vai cá dentro. Por nós e pelo nosso filho tenho medo de te dizer coisas que uma vez ditas nos poderão conduzir a um ponto sem retorno, o ponto de nos odiarmos um ao outro. Prefiro calar-me e esquecer que existes. Tu é que me vens com uma notícia dessas e apenas insistes em dizer que a culpa é minha? Não. Se culpas há, são dos dois. Como querias que eu reagisse, como querias que acedesse às tuas investidas sabendo que a tua boca tinha beijado outras bocas, que as tuas mãos tinham acariciado outros corpos, quando trazias agarrado a ti o cheiro de outras mulheres? Diz-me… como querias ter-me inteira?  Mesmo assim, muitas foram as vezes em que sucumbi ao desejo e que te amei com a sofreguidão dos desesperados… Nem isso tu alguma vez percebeste. Agora, pelos vistos, é a sério. E apesar de tudo, apesar de saber que a vida comigo deixou de te ser suportável, agradeço-te a sinceridade… Mostra que, pelo menos, te resta ainda uma pinga de respeito por mim. Transformaste o meu sonho em pesadelo. E agora, deixa-me só.
Um escritor afirmou que o sol não existe sem a sombra, e que é essencial conhecer a noite.  É na escuridão que Sofia anda perdida. Tudo à sua volta está mais acelerado, tudo é estridente, e ela que ambicionava poder ficar sozinha uma só noite, talvez já esta madrugada. Naquele turbilhão era-lhe impossível imaginar uma outra vida, encontrar um novo caminho para além deste, pensar em alguma coisa de diferente ou de original. Mãe, já não amante, já não tão jovem como outrora, manietada pelo tempo que também a encarcerou.
Ventos fortes sopram das bandas do norte. A relva aparada com primor em redor do prédio, dança assustada com o sopro do vendaval que parece que tudo vai levar. Que tudo levou mesmo.
E agora? Estes acontecimentos inglórios alteraram-lhe a vida, viraram tudo do avesso e atiraram-na para um buraco negro de onde se lhe afigura não haver saída. Quando chegar a casa, depois de ir buscar o filho, Sofia terá de sonhar com um herói que a venha resgatar.  Que sentido faz a vida se nela não encontrar espaço para heróis? Imaginar-se numa outra existência, mitigar a dor, olhar para ela de frente, tentar descobrir um rumo, algum sentido para as coisas.
- Uma história de amor, foda-se, será que é pedir muito da vida? Quero um herói que me salve, alguém para quem eu seja o mundo e a própria razão de existir. Quero alguém que me diga, de coração nas mãos e com verdade no olhar, que me ama mais que à vida. Se possível, ainda nesta encarnação.
 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

FEBRAS E SALADA DE PIMENTOS


Navego, de novo, por páginas em branco. Recordo, de novo, as histórias que tenho para contar. É assim, tal como nesse instante em que comecei a escrever a primeira história. O Lopes ficou contente quando lhe disse. Deve estar mesmo a chegar. O toque, o cheiro, a forma retangular que impele ao registo das palavras, a tinta que flui e esborrata, por vezes, os alinhamentos bem desenhados reforçando uma letra nesta página por onde as palavras navegam. Este é um novo caderno, mas as palavras pertencem à obra por construir. O Lopes deve estar mesmo a chegar. A máquina dos cafés não descansa, e o Abílio faz quilómetros neste somatório de slalons por entre as mesas repletas do restaurante. Escrever, sempre, mais um pouco, todos os dias.
A mensagem que Helen me enviou dizia-me que só depois das oito e meia estará livre para conversar:
- “Hello. How r u? I´m working. Call me after 8.30. p.m. XXX :)”
Quando o Lopes chegar mostro-lhe a caneta que comprei na feira, e este caderno ainda tão vazio para onde a obra irá transbordar. Aqui também será a sua morada desconhecida. Não vão ser estas parcas palavras que o irão acalmar, mas sim a boa nova que é esta minha vontade em concluir o romance, em dar-lhe um rápido andamento, em escutar com atenção as frases que me são doadas e registá-las com prontidão.
O Lopes chegou. Estaciona o BMW quase em frente à entrada do estabelecimento, do lado certo da rua. Não falha, uma e um quarto. A mesma pontualidade de sempre, a mesma mesa, e um abraço forte, sentido.
- Rui, que saudades eu já tinha destes nossos almoços. Mas que valente susto tu nos pregaste, homem! Um susto do caraças. Nunca estiveste tanto tempo sem dar notícias, e trazias toda a gente preocupada.
- Que exagero, Lopes, que exagero. Resolvi passar estes últimos dias a meditar acerca de uns assuntos que me andavam a inquietar, foi apenas isso. E preferi manter o telemóvel desligado, e não atender qualquer chamada. Estive sempre em casa, nunca saí. Mas isso já passou, foi um tempo necessário. E que melhor notícia te podia eu dar? Sabia que ias ficar contente. Prometo terminar a obra durante o próximo mês, se tudo correr conforme eu espero. Então, o que me dizes? A editora ainda está com vontade de me ter de volta, apesar de tantas contrariedades, de tantos avanços e recuos da minha parte?
- Estás parvo, mas isso lá é pergunta que se faça? É claro que sim! Que bom, nem pareces o mesmo Rui do ano passado. E essa tua resolução, se a conseguires cumprir, é tudo o que a editora necessita para começar a dar andamento às coisas. Que boa notícia, camarada. É mesmo uma ótima notícia.
O Abílio já colocou o jarro de vinho tinto em cima da mesa, o cesto com a broa fatiada, as azeitonas, o galheteiro, só falta mesmo a travessa das febras grelhadas à moda da casa acompanhadas com a magnífica salada de pimentos.
- Hoje, o almoço fica por minha conta. Este fim de semana não podia estar a começar de melhor maneira, Rui. Que bom é estarmos de novo aqui reunidos ao almoço, camarada, e eu que já começava a sentir falta destas nossas conversas.

DOIS ESTRANHOS, DOIS IRMÃOS



Os universos são entidades orgânicas dotadas de vontade própria que se movem a velocidades indescritíveis. São cruéis, instáveis, imensos.
Zé Paulo imagina este universo como uma gigantesca bolha de sabão colorida, e idealiza um outro com a configuração sofisticada daquela nuvem lá no céu. Os dois pertencem-lhe, são uma criação sua de existência imaterial.
Todas as vidas são universos indescritíveis em movimento, ora afastando-se, ora encontrando-se. Acabam transformadas em outras sofisticadas bolhas de sabão coloridas com estranhos formatos. O universo é um local cruel e violento, disso não resta a mais pequena dúvida. Zé Paulo tem conseguido manter-se alheio às vozes que lhe trazem conversas fúteis e desinteressantes. É incompreensível como se gasta tanto tempo a discutir assuntos tão inúteis, absurdos e perversos. Será que alguém se preocupa, entregues que estão as pessoas a ingratas tarefas rotineiras?
Sofia já deve ter saído do hospital. Provavelmente foi buscar o Tiago à escola. Andava, quase adormecida, junto às linhas intemporais que delimitavam as fronteiras do imenso buraco negro responsável pela harmonia do seu universo. As dúvidas derreteram-se, desapareceram, e regressaram transformadas em respostas que logo foram desagregadas em luz e em poemas. Sofia mudou, tem de estar mudada. Esta manhã violenta alterou o centro de gravidade do seu planeta. O tempo de ontem desapareceu, está longe, onde está, agora, o tempo de ontem? Onde se esconderam as suas estrelas? Quem lhe dera que a deixassem em paz, nem que fosse por uns instantes, por uma vez na vida.
Palavras diferentes, palavras iguais que significam coisas diferentes, palavras fúteis, foram todas engolidas pelo imenso buraco negro. Escorregaram pelas paredes geladas do imenso vórtice que apenas cumpre a sua função. Ali se misturam o fogo e o gelo da existência com a ausência do tempo que depois são agitados por forças terríficas. Essas são as energias que transformam realidade em ilusão. Sonho, dúvidas, cansaços, e os desapontamentos de todas as histórias, tudo acaba engolido pelo buraco negro que os desliga, desorganiza e desintegra. Saem inteiros pelo outro lado da fogueira, às costas uns dos outros, e crescem, medonhos, como as labaredas do mais dantesco dos infernos.
As ideias surgem assim, estranhas, da cor de ferrugem que lhes vem agarrada ao corpo. As ideias surgem assim, muito detalhadas em forma e conteúdo, rodeadas pela luz branca e intensa do hipnótico buraco negro que a todos enfeitiça. Ele é a porta de passagem para o outro lado do universo, e esta é uma altura tão boa como qualquer outra para o atravessar. O mundo exterior não existe, apenas esse outro que se esconde no centro daquela confluência luminosa para onde espaço, tempo, luz e matéria são sugados.
Zé Paulo não acredita nas histórias que dão conta do que ali se passa. Os que o tentam fazer julgam discorrer acerca dos acontecimentos que lá ocorrem, mas na realidade, ninguém ainda comprovou possuir tamanha sapiência. Ali é o reino das sombras. Os buracos negros são lugares silenciosos onde as almas tentam encontrar um novo rumo.
Rogério está desanimado. Tornou-se quase impossível ter uma conversa séria com o irmão, e isso entristece-o. Este estranho mundo das ciências onde ele se refugia é confuso demais. Zé Paulo ganhou esta obsessão e quase deixou de comunicar com os amigos, com a família e conhecidos. Passou a viajar até às perigosas vizinhanças dessas entidades cósmicas que tanto o fascinam. Deixou de dormir às horas convencionais, tem a casa sempre desarrumada e o sofá passou a ser a sua cama. Quer descobrir os segredos dos universos, como ele próprio afirma, e construiu esta caverna invisível e misteriosa, escondida de tudo e de todos, para onde se deixa transportar.
- Eu não durmo, não preciso, eu limito-me a sonhar. – respondeu Zé Paulo, para desespero do irmão.
- Mas que porra! Que tolice a tua teres optado por esta estranha forma de vida. – contrapôs o Rogério, algo irritado.
- Acreditas em fantasmas? Não, tu não és pessoa para acreditar em fantasmas. Talvez os anjos da guarda façam mais o teu género. Claro! Como foi possível eu não ter dado conta disso. Tu acreditas em anjos da guarda, mas não em fantasmas. Verdade, vejo isso nos teus olhos, mas tu és demasiado brioso para confirmares a minha suspeita. Deixa, não faz mal, o teu olhar diz-me tudo o que preciso saber sobre o assunto.
Zé Paulo alimentava este tema de conversa nos jantares em casa do irmão. Rogério e Madalena fazem questão em convidá-lo, com regularidade, mas as conversas repetitivas começam a gerar algum incómodo. Os sobrinhos gémeos acham que o tio é muito engraçado, mas um bocadinho esquisito. Riem-se de alguns dos detalhes bizarros daquelas histórias acerca das estrelas, das galáxias e dos famosos buracos negros de que ele tanto gosta.
- O processo repete-se quase sempre da mesma maneira. Imaginem um espelho com pequenos orifícios quase impossíveis de detetar. Um espelho com forma de nuvem, mas tão fino e flexível como uma bola de sabão a bailar ao som da mais bela melodia. Esses furos luminosos são os poderosos buracos negros que mantêm constante as rotações das galáxias por eles controladas. Não existe um dentro e um fora, apenas o mesmo caos e escuridão do início dos tempos. A nossa morada é frágil, tão frágil como essa bolha de sabão onde coabitam complexos sistemas cosmológicos. Tu lembras-te, Rogério? Recordas-te daquela noite em que as mãos do nosso pai não tremeram? Como raio foi possível o velho Sepúlveda ter falhado um alvo tão fácil?
- Com franqueza, mano, quantas vezes já te pedi para não mencionares esse assunto à frente dos miúdos?
A cabeça de Zé Paulo só lhe diz que os dias, aqui em baixo, são longos como as noites no espaço onde reina a matéria negra. Cada vez mais as suas divagações levam-no para esse distante infinito.
Foi Madalena quem teve a brilhante ideia de o convidar para passar o Natal com eles. Rogério olhou-a, meio surpreendido, e depois voltou-se para o Zé Paulo, sorridente.
- Sim, mas que bela ideia, Madalena. Então, o que dizes a passares o Natal em nossa companhia? Há quanto tempo não o festejamos juntos, mano?
Zé Paulo também sorriu, mais por voltar a ver aquela expressão ao irmão Rogério, igualzinha à que ele costumava fazer quando o Alexandre não o deixava jogar à bola por ainda ser muito pequeno.
- O futuro chegou depressa. Como foi possível termos chegado até aqui com esta rapidez? Disseram-me que o nosso pai falhou de propósito. Eu cá acho que alguém invisível deve ter repousado uma cabeça amiga no seu ombro e lhe terá afagado as costas para o refrear.
Noites.
Noites com o tamanho de dias e de noites.
Noites inteiras gastas na procura das respostas.
- Verdade? É verdade, tio? Vai mesmo passar o Natal connosco este ano? Vai ser fixe, vamos mostrar-lhe os nossos carros telecomandados e podemos jogar o monopólio.
Faltavam cerca de duas semanas e meia, e este ano ia ser diferente. O Natal é sempre o Natal. As noites de Zé Paulo têm sido bem longas e solitárias.
- De acordo, Madalena. Terei todo o gosto em passar este Natal convosco.
- Que bom, Zé Paulo, fico contente! Ainda bem que resolveste aceitar o convite. Estou muito feliz!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

CAMARATA 72


Filme demasiado chocante de Hitchcock sobre o Holocausto esperou 70 anos para ser lançado


Reprodução / YouTube

"Memória dos Campos" é um filme produzido por Alfred Hitchcock em 1945 que apenas agora será oficialmente projetado.

“Memória dos Campos” é um filme produzido por Alfred Hitchcock em 1945 que apenas agora
será oficialmente projetado.

“Memória dos Campos” é conhecido como o documentário nunca visto de Alfred Hitchcock sobre o Holocausto.  A película, realizada em 1945 para mostrar aos alemães as atrocidades nazis e vetada pelos aliados devido à brutalidade das suas imagens, está finalmente pronta para ser mostrada ao público. 
Em 1945, Alfred Hitchcock ficou em choque. O “mestre do suspense” ficou tão horrorizado ao ver as imagens da chegada das tropas aliadas aos campos de concentração, no fim da Segunda Guerra Mundial, que ficou uma semana sem conseguir voltar aos estúdios. Em seguida, empenhou-se na produção do filme, que editaria as imagens chocantes para mostrar aos alemães a dimensão dos horrores do Holocausto.
No entanto, as autoridades britânicas consideraram o filme tão forte que não permitiram o seu lançamento oficial. Numa época em que as potências vencedoras estavam interessadas em reconstruir a Alemanha, uma obra que  apontasse o dedo e atribuisse responsabilidades à população alemã em geral, de forma tão poderosa, não seria a melhor solução.
O jornal Independent conta que as bobines de ”Memória dos Campos“, como se chamou a obra, ficaram durante anos armazenadas no Museu Imperial da Guerra. Em 1984, uma versão incompleta foi projectada no Festival de Cinema de Berlim. No ano seguinte, foi transmitida nos EUA, pela cadeia de televisão PBS, uma versão de baixa qualidade.
Foi apenas para os 70 anos da libertação da Europa do poder nazi, que se completam em 2015, que o museu decidiu restaurar o filme de forma a mostrá-lo, oficialmente, ao mundo.
Afinal, que filme é este?
São imagens da chegada das tropas aliadas aos campos de concentração, sendo recebidos pelos sobreviventes e, em seguida, recuperando os debilitados e encontrando os corpos dos que morreram por doença ou extermínios em massa.
Filmadas por soldados britânicos e soviéticos, as imagens revelam campos de concentração como Auschwitz, Bergen-Belsen (cerca de metade do filme), Buchenwald e Dachau.
Toby Haggith, curador principal do Museu Imperial de Guerra, descreve ao Independent que um dos comentários mais comuns entre os que viram as primeiras versões do filme era que o filme “era terrível e brilhante, ao mesmo tempo”.
A ser transmitido na televisão britânica em 2015, as projeções do filme serão acompanhadas de um outro documentário, “The Night Will Fall“, de André Singer.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

HOJE, RECORDA



Isilda ficou sozinha, com aquela vontade de se matar.
Chamaram-lhe tantos nomes.
Rebatizaram-na.
Anacleto desapareceu.
- Foi um mistério… - era o que diziam pela paróquia.
Isilda não sabia o que pensar, e coisas muito más lhe passaram pela cabeça.
Ele era o seu homem, o seu verdadeiro amor.
Encontrou-o na igreja, naquele dia. Ele viu-a, e soube ali, naquele instante em que tudo se iluminou, que o coração não mentia. O corpo estremeceu, sentiu tudo num repente. Foi naquele instante em que Isilda o encontrou.
O nascer do sol, aos domingos, roubava-lhe as histórias e o sonho.
África ficava tão perto e tão longe. As mulheres fúteis e ciumentas, umas beatas sem vida própria, mataram-lhe o sol, os sábados e a esperança. Falavam com um ódio no olhar, e uma inveja nos corpos. Acabaram de vez com o seu encantamento. Sim, era mesmo verdade, Isilda e Anacleto eram amantes, e todos os sábados fugiam para aquele mundo aparte onde se entregavam um ao outro como se o amanhã não existisse.
Anacleto desapareceu para não mais regressar.
Ela esperou, e desesperou.
Os anos que ela desesperou.
Hoje recorda.
O Guincho convence-a. O amor é como as ondas de um mar agitado.
O Guincho convence-a a entrar.
Que diferença pode fazer.
As lágrimas são salgadas como o oceano.
Puta de vista esta!

Daniel coloca a cabeça no ombro de Isilda.
Daniel afaga-lhe as costas.
Ele sabe onde está Anacleto.