sábado, 4 de janeiro de 2014

LAR, DOCE LAR


O desespero tomou conta de Sofia. As suas suspeitas tinham fundamento, os nervos deram uma ajuda, e tudo neste dia deixou de fazer sentido. Ela não consegue deixar de ver a cara do Tiago. O que vai ele pensar dos pais, o que pensará de si?
A vida, de um momento para o outro, ficou toda lixada, ficou branca, pálida, asséptica como o hospital para onde foi levada. Há qualquer coisa nos outros que a faz sentir-se enojada. Confiamos nas pessoas e elas acabam sempre por nos desapontar. É a natureza humana, a natureza das coisas.
Sofia aturou sempre as pequenas e grandes merdas do Afonso, ele que lhe estragou a vida, pedaço a pedaço, ele que gozou com ela descaradamente, desde a sorridente quarentona à loira vistosa, e agora com aquela porca da escola onde trabalha. Vai ser preciso recomeçar, abrir novas portas, esquecer, seguir em frente, mas agora não consegue deixar de se sentir manipulada, e com o orgulho desfeito.
Onde ficaram todas as promessas de amor? Perigosas, são perigosas e fazem mais vítimas que os acidentes rodoviários. Ferem, matam mais que mil punhais.
- Só queria a minha vida de volta, merda! Porque será que não posso ter a minha vida de volta? Acabou-se o tempo, e deixei de sentir o carro, agora sei que o deixei ir só para ver se tinha coragem … porquê? A resposta esteve sempre debaixo do meu nariz, e eu fazia de conta que era apenas uma miragem.
A chuva regressa, com intensidade, bate nas vidraças das urgências e torna o ambiente ainda mais soturno.
Sofia tem muitas coisas para fazer.
Pensou perder tudo, mas depois apareceu o rosto do Tiago instantes antes dela voar pelo vidro da frente e aterrar, já desmaiada, naquele lar transformado em monte de juncais. Lar, doce lar.
Sofia decide sair das urgências tal como tinha entrado, sem esperança, só com vontade em voltar a ver o filho, nada mais.
Sofia sai do hospital debaixo de uma chuva copiosa que ela não sente. Talvez seja dos efeitos dos medicamentos.
Afinal, o que é isso do amor?
Até onde será capaz de ir Sofia por amor ao seu filho?
Por uma única vez gostaria que o Afonso tivesse sido homem e lhe tivesse dito a verdade.
- Eu sei tudo! Olha-me nos olhos e mente mais uma vez, se fores capaz! Semanas, meses, eu sempre a sabê-lo, e tu sem coragem para me disseres, só a viver esta mentira. Descobri tudo, tal como antes de casarmos, mas preferi continuar a sonhar. Agora, finalmente, entendi-te! Ficas com tudo, com este abandono ao qual te condeno, com todos os gestos que nos destruíram, com o gelo a que essas tuas aventuras nos condenaram. Há uma coisa que te agradeço, Afonso, o teres sido tão estúpido ao ponto de me ser fácil garantir a custódia do Tiago, meu grandessíssimo cabrão!
A fortíssima bátega de água purifica-lhe os pensamentos. Todos a deixam passar à frente na fila de táxis ao verem-na assim tão encharcada e marcada pelas feridas desenhadas no rosto.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

DESPERTAR



O universo recomeçou a marcha a diferentes velocidades.
Seria tão mais fácil conseguir voltar atrás para sermos vários eus ao mesmo tempo, saber o que fazer e como fazer.
As palavras apareceram no papel, as mensagens acumularam-se no telemóvel. A maior parte são do Lopes.
O universo recomeçou a sua marcha, inquieto, instável, com o mesmo insaciável apetite pela destruição.
Nada faz sentido.
O escritor recorda o dia em que Helen o convidou a entrar. Rui relembra o dia em que a convidou a entrar. As suas obras inacabadas encontraram-se, de novo, cresceram mais um pouco, de novo.
A janela da sala mostra a cidade de noite, tranquila, mas diferente. Um universo colorido, vivo, do lado de lá, a ponte, do outro lado, a rua, um universo paralelo e despido que gosta de se mostrar à janela, pacífico, belo e mortal.
- Onde será que estive estes últimos dias? Estou na cama, no sofá? As mãos em ferida, a memória apagada, esquecida. Como me deixei chegar a este estado? Não consigo raciocinar, pensar, elaborar uma ideia com sentido. Por onde terei andado estes últimos dias? Para onde foi que me levaste? Não compreendo estes hieróglifos que aqui escrevi. Isto é um teste, uma prova preparada pelo universo para me enlouquecer. Como é que eu posso escrever assim? É como se estivesse a ser permanentemente perseguido, necessitado da minha escrita e das minhas personagens para me recompor. Só elas me conhecem e sabem quem sou. Preciso de tomar um banho e ligar à Helen. Tenho de pedir-lhe desculpa pelo meu erro, pela minha péssima opção. Num outro universo, eu tê-la-ia acompanhado naquele dia ao invés de optar por escrever. Num outro universo que não estivesse tão próximo deste e que com ele acabou confundido. Preciso de lhe ligar, tudo ainda é possível.
Nos universos habitam as forças que os tornam violentos e cruéis, água, fogo, terra, ar e a poderosa matéria negra.
- Estes sonhos, estas cidades para onde me transportas, são a viva prova disso.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PASSEEI NA PONTE MAIS BELA



Jorge andou a pé toda a manhã.
Foi a mais perfeita das manhãs de sua vida.
A ponte é majestosa e andar por ela, sentir-lhe as vibrações nos ossos e na pele, era tudo o que sempre sonhara.
Olhar a cidade lá do alto é outra coisa, e nem o trânsito infernal o conseguiu incomodar.
O menino imaginou a construção sem viaturas e sem aquele zunido constante que faz lembrar milhares de enxames de abelhas prontas a atacar.
O chapéu da seleção e as roupas do homem misterioso estavam escondidas, primorosamente dobradas, junto à primeira das torres para quem segue para a margem sul.
Susana ainda não se restabeleceu da surpresa que foi aquela resposta do Jorge. O miúdo não pode estar a falar a sério, mas também não é menino para inventar uma coisa assim.
- O que queres dizer com isso, Jorge? Quem é que se atirou da ponte abaixo? E de que ponte falas? – pergunta-lhe a professora num tom de voz incapaz de esconder o espanto.
- Da ponte sobre o Tejo, stora! O meu pai trouxe-me de manhã, como todos os dias, e quando estávamos a passar no tabuleiro, mais ou menos a meio, vi um homem a passear na ponte. Achei aquilo muito estranho. O senhor não parecia estar ali a trabalhar. Disse-o logo ao meu pai, stora, a sério que disse, mas ele quase não me ligou. Explicou-me que devia ser alguém da manutenção. Foi nessa altura que eu deixei de o ver, o homem desapareceu lá de cima como se fosse magia.
Susana está perplexa com esta informação, e antes de conseguir articular uma palavra, Jorge retoma o discurso:
- Nunca mais o vi! Onde é que ele se teria escondido? A ponte não tem esconderijos nem buracos gigantes que o possam ter engolido. A ponte é a mais bela e extraordinária construção de Lisboa, professora. É a mais bela e maravilhosa ponte de todo o mundo, assim é que é. Quando o meu pai me deixou à porta da escola, juro que pensei muito antes de decidir. Escolhi ir até lá para tentar descobrir o que teria acontecido. Foi por isso que só agora aqui cheguei. Mas eu tinha mesmo de investigar o que andava o homem a fazer na minha ponte.
- Tu, … tu foste sozinho, a pé, até à ponte sobre o Tejo, Jorge? É mesmo isso que me estás a dizer? Tu fazes ideia dos perigos tremendos por que passaste? Tens certeza de que não me está a mentir, Jorginho? – insiste Susana, com aflição.
- Sim, professora, é mesmo verdade! Depois começou a chover muito e ainda pensei voltar para trás, mas ficou melhor e continuei. Não é assim tão longe, e o passeio é muito, muito bonito. O triste foi quando lá cheguei acima, stora. Encontrei os sapatos e as roupas do senhor arrumadas junto ao pilar, mais este chapéu da seleção que trago na cabeça. Ele atirou-se da ponte abaixo. Foi isso que aconteceu. Vinha eu a pensar nisso de regresso à escola quando uma voz simpática me pediu para não tirar o chapéu da cabeça até o dia terminar. Disse-me que era assim que o ajudaria a conseguir encontrar um sítio seguro onde se abrigar.
Susana está sem pinga de sangue, e não consegue raciocinar.
- Desculpe ter entrado assim na sala, stora, mas agora já sabe porque é que eu o fiz.
Após um momento de silêncio, a professora recompõe-se e oferece-lhe um sorriso.
- Anda, vem comigo, Jorge. Vamos telefonar ao teu pai.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

COMBOIO PARA AUSCHWITZ




A cidade cinzenta acorda por entre sombras e contraluzes. As portas das camaratas abrem-se e os prisioneiros são obrigados a sair. Os reflexos dos corpos na neve derretida espelham medo, angústia, desilusão. O ar gelado da manhã recebe-os e eles não levantam os olhos do chão pois isso é muito arriscado. Como foi possível a vida ter-lhes pregado semelhante partida?
A camarata 72 ficou vazia de irmãos.
Os soldados nazis conduzem a mudança enquanto disparam para o ar tiros intimidatórios. Também eles se mostram tensos e nervosos, e vão gritando que ninguém viverá para contar esta história.
Dois prisioneiros arriscam a fuga e logo são abatidos. Segue-se um silêncio insuportável. O sangue mancha a neve derretida, passeia nos olhares que se cruzam e interrogam.
A transferência dos prisoneiros continua com os militares cada vez mais atentos a novas tentativas de fuga. Um dos sargentos que disparou não consegue evitar um histérico ataque de riso. Outro resolve dar mais dois tiros nos corpos já cadáveres.
As sirenes do grande complexo tocam sem piedade.
Eles apenas tinham de permanecer na fila…

O comandante aparece, atraído pelos disparos, no exato momento em que outro prisioneiro começa a correr na direção da camarata 72. O oficial aponta a Luger e dispara, ferindo-o com gravidade. Após os tiros, aproxima-se do homem que se encontra caído, de barriga para baixo, e vira-lhe o rosto com a bota para melhor o ver morrer. Acende um cigarro e fuma-o enquanto a vida do prisioneiro se apaga.


- Agora a tua memória está bem fresca. – exclama o invisível. – Grava estas cenas para jamais as esqueceres. O coração dos homens é cruel e violento, tu tens de o explicar na tua obra. O coração dos homens transforma-se ao sentir-se poderoso. O poder é um veneno que cega e destrói, que chega de dentro e de cima e vira tudo do avesso. Deixamos de ser quem somos e perdemo-nos como numa tempestade de areia. Ficamos imprudentes e obcecados ao manipular essa arma imaterial. O comboio para onde vos estão a levar tem como destino Auschwitz. Tu acompanharás os teus camaradas até meio da viagem. Quando a noite cair, saltarás da carruagem em andamento, e tudo acontecerá como se de um sonho se tratasse. Ser-te-á mais fácil fazê-lo se pensares assim. Os soldados alemães são muito poderosos e a única maneira de te protegeres é preservares a memória de todos. Tens de sobreviver para contar esta história na tua obra. Mais cedo ou mais tarde, todos temos de acordar. Os teus vizinhos andam preocupados com a tua ausência e começam a duvidar da tua sanidade. Tens de regressar depressa antes que o mundo que conheces desapareça de vez. Tenta ser o último a entrar na carruagem para ficares junto à porta que, com tantas viagens, tem o ferrolho enferrujado. Aproveita a madrugada escura para saltares. Deves esconder-te no bosque onde permanecerás até despertares. A música da tua amada irá trazer-te de regresso a casa, ao teu salão, à tua Lisboa. Tens de ser corajoso e não te deixes abater pelas constantes barbaridades dos soldados nazis. Obedece-lhes, segue os passos dos teus irmãos, e escuta a melodia de Helen. Deixa que tudo aconteça como num sonho. Já não falta muito para voltares. O Lopes necessita da tua obra para que a normalidade regresse às vossas vidas.
Rui julga ter enlouquecido de vez. A voz do companheiro improvável mistura-se com a inconfundível melodia da irlandesa tocada pela própria ao piano. As sirenes e os berros dos oficiais alemães quase que desaparecem quando o escritor entra numa espécie de transe. Um empurrão violento trá-lo de volta à cidade demente. O comboio para o campo de extermínio de Auschwitz está a ser carregado com milhares de prisioneiros. As carruagens são imundas, os cheiros pestilentos e o espaço depressa se torna exíguo. Uma mão ajuda-o a entrar, por último, num vagão repleto de inocentes.
Incomoda tanto silêncio, incomoda mais do que se escutasse mil choros os se as lágrimas o afogassem. Aqui não há crianças, aqui só coabitam corações destroçados e almas abandonadas.
- Não te esqueças de saltar, Rui! Não te esqueças! Relembra-lhe o invisível. – A noite, quando cair, será tua aliada. Aproveita a lua nova para te esconderes depois do salto. Não te esqueças, procede conforme te instruí. Salta, salta com coragem de regresso à vida.

As memórias provocam-lhe violentas dores de cabeça. Nada parece real, o universo furta-lhe a realidade enquanto o castiga com intensas cefaleias.
Helen confiou nele e acreditou no seu amor.
Helen passeou com o escritor na mota que ele herdara do avô.
Helen mostrou-lhe onde vivia, abriu a porta e convidou-o a ouvir a sua obra inacabada.
Helen mostrou-lhe o seu corpo cor de mármore e pediu-lhe para lhe dizer tudo o que lhe viesse à cabeça.
Rui disse ter pavor de funerais, disse ter receio de morrer afogado.
Rui disse que gostaria de celebrar o centenário para conseguir escrever todas as histórias que tem para contar.
Helen afirmou gostar muito da sinceridade do escritor, do seu sorriso e da maneira como ele a olha desde a janela, como se a quisesse sua.
Helen regressou ao piano para tocar, e convidou-o a tomar banho consigo.
Helen gostaria de lhe descobrir os segredos, e ficou a saber o quanto ele a ama.
- Life, sometimes, fucking hurts, but it´s all we have. I feel safe with you, and I hope you feel safe with me, too. Look, here I am, crying, because I know you are going to disappear from my life, again. Where are you now? Do you really know where you are?
- Yes, this is my life, and I´m in love with you, Helen. But, right now, I got to jump. It´s something that I have to do. My life depends on it.
Antes do sonho terminar, a noite escura abraçou-o. Rui segue à risca as instruções do amigo improvável. Empurra com toda a força a porta de correr da composição, e atira-se para o vazio, sem hesitar.