quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ESCUTA O SILÊNCIO QUE VEM DO MAR


A rapidez com que tem de criar, por vezes, assusta a pianista. O tempo e o espaços são voláteis e tão inconstantes como a própria vida. Helen cada vez tem menos períodos onde está cara a cara com o silêncio. Talvez por isso aprecie tanto a descoberta que fez daquele lugar junto ao Guincho. Na primeira ocasião em que por lá passou, começou de imediato a compor uma sinfonia excecional. O mar é o mesmo mar da sua Irlanda, mas a costa, a paisagem, o clima, a luz e os incensos são bem diferentes dos seus. A baía junto a Summercove, perto de Kinsdale, era o refúgio de verão da família. Ela entretinha-se a escutar o barulho que o mar fazia ao fustigar as falésias, e procurava melodias nas ondas antes delas lhes baterem. Na espuma esbranquiçada descobria as notas e inventava sons alinhavando mentalmente as primeiras partituras com tudo o que a natureza lhe tinha para oferecer. Deidre permanecia silenciosa, observava a irmã mergulhar naquele transe sedutor que a mãe não conseguia entender. Satisfazia-lhe algumas vontades e costumava acompanhá-la até junto da costa onde as duas passavam grande parte dos dias de verão.
A partitura era esboçada, quase em segredo, numa folha invisível. As claves navegavam à deriva por entre semínimas, breves, fusas, semifusas e semibreves. As ondas forneciam-lhe o ritmo, o vento as variações, e semeava as colcheias pelo meio das notas sempre que as gaivotas decidiam mergulhar em busca de refeição.
Helen só voltou a compor assim junto ao Guincho, neste lugar que agora é dela. Sorri, e a obra cresce mais um pouco. Não podia estar a ser um dia melhor. A menina nasceu, ela foi novamente tia. Esta memória ficará perpetuada através da linha melódica com que a irlandesa abrilhanta a sua obra. Recebe no coração a paisagem que lhe faz lembrar o sempre arrebatado mar irlandês. Aqui também as nuvens são diferentes, como os dias e as marés, e tudo isto passará a fazer parte da partitura da sua nova sinfonia.
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

É DIFÍCIL DECIFRAR O FIRMAMENTO



Zé Paulo sempre foi uma pessoa diferente, e soube-o desde pequeno. O menino observava o céu e as estrelas através do fundo de copos e de garrafas coloridas. A mãe quase nunca lhe falava, e ele cresceu preocupado com essa falta de atenção. Virou-se na direção do firmamento, das estrelas, e na direção do senhor de chapéu de feltro que de tudo um pouco lhe ensinava, e a quem gostava de fazer perguntas. Esse senhor tinha o mau hábito de fumar, bebia muitas cervejas, gostava de jogar às cartas, mas era bastante generoso. Tinha sido um grande amigo do pai, quando os dois eram novos. Festejavam os aniversários em conjunto, tiravam fotos com máquinas muito antigas, até que lhes aconteceu o mesmo que acontece a tantas boas amizades – apaixonaram-se os dois pela mesma mulher. O mais justo decidiu fazer meia-volta, e escondeu a tristeza de coração partido.
- Por mais que o queiramos evitar, rapaz, alguém tem sempre de partir. E na maior parte das vezes em que isso sucede, a esperança é de que seja para encontrar algo melhor…
Zé Paulo não o compreendia, mas adorava o seu tom de voz. Sabia que aquele homem de quem ele gostava tinha tiradas misteriosas, e não se importava de, por vezes, não entender lá muito bem o que ele dizia.
- Estamos todos aqui só de passagem. Escuta o que te digo rapaz, de passagem e nada mais. Vejo nos teus olhos que tens um grande talento. Por vezes até te assustas com esse teu dom, mas não te preocupes. É igual ao de muitos de nós. Nisso não estás sozinho. Verás o sol, estudarás as estrelas, respeitarás as árvores e saberás o tempo exato que demoram a crescer. O teu pai é médico, mas não sabe medir a intensidade com que a dor sobe pelo corpo dos pacientes, nem sabe que técnicas utilizar para a controlar. Tu e eu sabemos escutar a voz do universo, e sabemos que não engana ninguém, apenas aqueles que não o conseguem decifrar.
Naquele dia tudo mudou. Pela primeira vez as palavras desse homem fizeram todo o sentido. A mãe chamou-o por duas vezes, de longe, para ele regressar. Zé Paulo respeitou a ordem. Tinha onze anos e a mãe já carregava um olhar vazio e cansado. À noite, enquanto dormia, os cometas trouxeram-lhe a novidade durante uma discussão violenta dos pais. No sonho, o amigo apareceu-lhe sorridente e a fumar, com o imprescindível chapéu na cabeça. O menino passou a saber que o universo é um lugar violento. Saiu de casa sem fazer barulho, e foi à procura do senhor antes que algo de muito mau lhe pudesse acontecer. A camioneta chegava bem cedo à paragem da vila, bem antes do sol acordar. Zé Paulo correu como um louco para se despedir do amigo, mas ele já tinha partido quando lá chegou. Chorou! Chorou muito sem entender o que é que o pai ali estava a fazer. Ao regressar a casa a mãe estava à sua espera. O pai chegou pouco depois, e encontrou-os junto à mesa da cozinha preparados para discutir.
- Sim mãe, é verdade, o senhor Peres é muito simpático! Só tu e o pai é que parecem não gostar dele. Ele é o meu único amigo adulto, e eu gostava muito dele.
Sepúlveda e Deolinda passaram o resto da alvorada a falar do homem e na influência que ele acabou por ter nas ideias do menino, coisa que eles tentaram evitar, mas sem sucesso.
Zé Paulo refugiou-se cada vez mais na prática do seu passatempo preferido – observar as estrelas através de todos os tipos de vidros que conseguia encontrar.
A mãe, uma noite, entrou no seu quarto e decidiu contar-lhe a história do senhor Peres, de como ele e o pai tinham sido grandes amigos quando eram novos, ainda mais novos do que ele, amigos inseparáveis. Depois, abraçou-se ao filho e entendeu que tinha feito a escolha mais sensata naquele dia distante, mas não a que o coração lhe pedia. O Peres era delicado e formoso. Deolinda mantém escondida uma fotografia dele onde o Sepúlveda jamais a encontrará.
- O senhor Peres ensinou-me a ler os pensamentos, mãe, ensinou-me a olhar as estrelas com olhos de escutar e não de olhar. Porque é que o pai fez tanta questão que ele se fosse embora da vila, mãe, porquê? Sabes? Diz-me porquê?
Deolinda agradeceu ao universo ele não ter permitido que o filho lhe lesse os pensamentos naquele instante.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

COMO É BELA A COR DOS TEUS CABELOS



O espesso fumo negro eleva-se no ar enquanto os bombeiros tentam criar um perímetro de segurança com a ajuda do corpo de intervenção da polícia. Ninguém sabe, ao certo, se existem mais bombas espalhadas nas imediações ou se este terá sido apenas um ato isolado. Os muitos mirones que foram chegando são afastados do local pelos agentes da autoridade.
Carla permanece abrigada no conforto dos lençóis, desejando que o dia passe depressa, que se faça noite, uma noite silenciosa e bem escura para onde ela possa deslizar. Agora que o Armando deixou de ser, deixou de estar, talvez os dias possam recuperar o brilho e a alegria que tinham antes de ela o conhecer. As marcas na alma serão mais difíceis de cicatrizar, bem mais difíceis do que todas as outras mazelas que o rafeiro lhe semeou no corpo e no rosto. O sádico, uma besta selvagem que a seduziu, a encantou e enganou. Ela, sem defesas, facilmente se deixou ludibriar.
Foi fácil, tão fácil, mais fácil não podia ser. Armando bem cedo a domesticou para dela tudo fazer e retirar.
Carla ficou prisioneira na sua própria casa, deixou de ver os pais, os amigos, deixou quase de ver e de sentir, e sentiu vergonha da sua fraqueza, da sua ingenuidade, da sua genuína infantilidade. Até a noite, sua companheira de menina, se transformou num medo incomensurável que a paralisava de terror. Mal o bruto chegava, o universo deixava de existir, tal era o poder e o tamanho grotesco das suas mãos.
- Menina Carla, menina Carla! Vá lá, responda, olhe que tem aqui à porta dois senhores da judiciária que lhe querem fazer umas perguntinhas – insiste a dona Carminda enquanto faz de anfitriã aos agentes. O indicador da mão direita está dormente de tanto insistir na campainha. A senhora serve aos homens uma descrição do carácter e dos modos do falecido.
- Um homem assim não deixa saudades neste mundo. Se não tivesse medo do sujeito, sim, medo, pois o fulano impunha muito respeito, eu já teria telefonado à polícia para fazer queixa – confessa a senhora. – O indivíduo fazia uma algazarra tremenda, gritava palavrões, muito alto, e ameaçava a coitada da menina Carla. Os berros escutavam-se no prédio todo. Olhe que só um surdo não dava conta do que nesta casa se passava. Pobre rapariga, o que ela não terá sofrido com o brutamontes do homem, uma torre de quase dois metros num corpo de estivador… é como lhes digo, uma tristeza, coitada da moça. Esse Armando nunca me enganou, raio da criatura, e ninguém no prédio gostava de o ver por cá. Desde que por aqui apareceu, coisas estranhas começaram a acontecer, e gente muito esquisita que ele para cá chegou a trazer, mas agora… Deus me perdoe, o estafermo teve aquilo que merecia.

Isilda volta a observar o bonito sorriso de metal da pianista. Recorda, de novo, aqueles sábados distantes em que se entregava, de corpo e alma, ao seu amado Anacleto. Os dois chegaram a pensar partir para Moçambique, casarem por lá, ou não casarem, terem cinco filhos, uma quinta junto ao mar, ou uma casa, ter uma vida. Pensaram fugir para África, para a Beira, para longe dos olhares de reprovação das beatas da paróquia, das más línguas do povo, da mão cruel e poderosa do senhor bispo que bem cedo resolveu acabar com a paixão.
Foram os cabelos ruivos da rapariga irlandesa que lhe acenderam as memórias desses dias, pois Anacleto tinha os seus da mesma cor.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

AS COISAS SÃO APENAS AQUILO QUE AS COISAS SÃO


Rui não consegue regressar às palavras. Nenhuma das suas técnicas tem dado resultado. O escritor morreu para a escrita, como o provam o seu esboço de romance, as novas personagens e os enredos, que mais não são que uma inequívoca demonstração do seu eclipse. A força de onde lhe provinha o verbo e que lhe alimentava as histórias, acabou. A obra morreu sem ter nascido.
- Há quanto tempo não te fazes escutar, ó invisível? Sempre que falaste, escutei-te com atenção, e respeitei as tuas opiniões. Entendes, agora, que as forças que aniquilaram a minha criatividade são muito poderosas. Eu nada consigo contra elas. As histórias sempre foram a minha companhia, a minha família renascia com as novas palavras de cada novo livro que de mim era vindimado. Agora estou tão seco e negro como as videiras destroçadas pelas pragas. Num outro tempo, não muito distante, já tu terias argumentado e berrado comigo, terias feito aparecer uma outra cidade na janela da sala, terias tentado agitar a minha melancolia. Onde estás tu, afinal, que não te fazes escutar?
- Estou aqui, no mesmo lugar onde sempre estive. Nem me mexi. Tu é que te esqueceste de mim e deixaste de me escutar.

Quando Sofia recuperou os sentidos, reparou que o conteúdo da sua mala se encontrava espalhado, à sua volta, no meio dos juncais.
A culpa do acidente foi da chuva miudinha que caía sem dar tréguas, é o que todos lhe dirão.
A culpa do acidente foi do mau estado do piso daquela estrada secundária por onde ninguém deveria circular, é o que todos lhe dirão.
A culpa do acidente foi desta vida de merda, das putas das amantes que o cabrão do marido nunca se escusou de arranjar.
A culpa do acidente é apenas de Sofia, que fraca, tão fraca e tão medrosa, nem soube resistir à tentação, ao pecado, à malícia extrema de se deixar despistar. Talvez assim, finalmente, ela se transfigurasse ou, melhor ainda, desaparecesse de vez
O corpo está bem, nada lhe dói, apenas a alma.
O corpo não reage, ainda é cedo, só a alma lhe dói, pois nunca descansa.
O corpo está bem, mas a alma está rasgada, despedaçada, encharcada como o rosto e o cabelo, como toda a roupa que tem vestida.
O corpo está bem, não reage, mas está bem. O que raio lhe haveria de ter passado pela cabeça numa altura destas.
Sofia encontra o batom perdido ali bem perto de si. Foi um dos muitos objetos que a carteira semeou. Senta-se, passa o batom vermelho pelos lábios com a mão tremente.
O carro está imobilizado não muito longe dali, do outro lado da estrada, com a frente quase desfeita. Ela não compreende como foi possível ter passado incólume ao acidente. O universo resolveu ficar do seu lado, e ela terá de se esforçar para respeitar a importante decisão.
E o Tiago? Que culpa é que tem o menino para que tudo isto lhe esteja a acontecer?
A chuva miudinha ensopa o corpo dorido e derrotado de Sofia. Ela volta a passar o batom nos lábios com a mão mais segura. Estão impecavelmente contornados, brilhantes, intensos, apetecíveis e carentes.

- Vês, tal como eu te disse, estive sempre aqui. Considerei ser mais importante permanecer em silêncio, atento mas em silêncio.
- O miúdo acaba de perceber que te atiraste da ponte abaixo. O que achas que pode pensar um rapazinho tão novo de uma situação como esta?
- Não sei. Diz-me tu! E o que ficará a pensar o jovem Tiago quando lhe disserem que a mãe teve um acidente brutal no mesmo dia em que os pais discutiram e ameaçaram separar-se? O universo é um local violento, e as coisas são apenas aquilo que são, nada mais do que isso. As coisas, todas as coisas, são apenas aquilo que as coisas são.